Musical homenageia Bananére

No começo do século, nas ruas São Paulo imperava um caos lingüístico, com imigrantes italianos, portugueses, alemães, japoneses e libaneses se acotovelando entre as ruas estreitas do centro e o subúrbio, fortalecendo a mão-de-obra e agilizando o comércio local. Enquanto tentavam comunicar-se, os novos habitantes criavam variações da língua portuguesa e o dialeto mais famoso, o "macarrônico", dominava entre os italianos, a ponto de inspirar a criação de um personagem, Juó Bananére, pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado, que inventou uma língua própria e invadiu as principais crônicas paulistanas."Os escritos de Bananére são extremamente sonoros, o que facilita sua utilização no teatro", comenta Zebba dal Farra diretor de Almanacco Bananére, musical que estréia quinta-feira (07), às 21h, na Funarte (Alameda Nothmann, 1.058) e cumpre uma curta temporada até domingo. São vários textos selecionados entre as diversas crônicas e sátiras do "poeta, barbiére e giurnalista", que inventou uma língua própria, resultado de suas andanças pelo Bom Retiro. Dal Farra comanda os 20 atores do Grupo Mangará, que interpretam os diversos personagens retratados por Bananére.Uma das principais fontes de pesquisa foi a coluna As Cartas d´Abaxo Pigues (lê-se baixo piques, um antigo bairro de São Paulo), publicada entre 1911 e 1917 na revista O Pirralho, editada por Oswald de Andrade. "Bananére é normalmente lembrado como um pré-modernista, mas preferimos dissociá-lo dessa imagem, pois sua escrita foi única", comenta Dal Farra. Bananére, aliás, sucedeu Oswald como colunista da revista e só foi dispensado por ter ridicularizado a campanha nacionalista do poeta Olavo Bilac, admirado pelos modernistas.Os textos irônicos e críticos transformaram Bananére em uma das personalidades mais conhecidas de São Paulo dos anos 10. "Eu foi", "eu pôs", "San Gaetano", "nó mi vá pegá una gripe" são algumas das formas macarrônicas utilizadas pelos imigrantes, que Bananére retratava com graça. "Como boa descendente de italianos, há mais de 40 anos que me divirto com suas crônicas, especialmente as reunidas no livro Divina Increnca, e sempre quis levá-las ao teatro", comenta a atriz Myrian Muniz, supervisora do espetáculo. "A opção pelo musical foi ótima."Almanacco Bananére relata uma série de histórias que envolvem imigrantes, com os atores cantando músicas do folclore italiano, especialmente as da região de Nápoles, conhecidas por saraceni. "Aproveitei para musicar alguns textos do Bananére, além de criar canções originais para o espetáculo", conta Dal Farra, que apoiou suas pesquisas principalmente no livro Juó Bananére: As Cartas d´Abaxo Pigues (Editora Unesp), escrito pelo professor de literatura brasileira Benedito Antunes. "Ele faz uma análise criteriosa, principalmente sobre a experimentação lingüística."

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