Musical de Edu e Chico procura talentos

Edu Lobo e Chico Buarque terminaram a quinta canção do musical Cambaio, texto de João e Adriana Falcão que tem estréia prevista para meados de abril, no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Quem quiser ser ator do espetáculo, ou estagiar em algum setor da produção, tem chance rara: até terça-feira, deve procurar o Sesc Belenzinho (Avenida Álvaro Ramos, 991, telefones 0--11-6694-8718 ou 6694-4883, das 11 às 20 horas). Outra hipótese, com prazo mais largo - até quinta-feira - é inscrever-se pela Internet, pelo site do Sesc São Paulo (www.sescsp.com.br).A convocação dos selecionados será feita no dia 12. Os testes práticos para o elenco serão no próprio Sesc Belenzinho, nos dias 15, 16, 17 e 20. João Falcão, que além de co-autor do texto é também diretor e produtor do espetáculo, admite a hipótese de realizar testes em outras capitais - é idéia dele, desde que Cambaio começou a ser escrito, trabalhar com elenco de atores desconhecidos.A vontade de montar o musical começou a ser discutida no fim do ano passado, e Edu, Chico, Adriana e João começaram, de fato, a compor e escrever em fevereiro. Esperaram esse tempo para ver se aparecia um patrocinador. Não apareceu. "Então vamos trabalhar", sugeriu Edu Lobo. "Vamos fazer como antigamente; não me lembro que fazer Arena Conta Zumbi, nos anos 60, dependesse de patrocinador."E assim foi. "Nesse primeiro tempo, trabalhamos com calma" diz Edu, referindo-se não apenas à sua parceria com Chico, mas também à escrita do texto, por Adriana e João Falcão. "Agora, o laço deve apertar: precisamos ter prontas e gravadas 12 composições, até o fim do ano" - o texto, naturalmente, deverá estar pronto antes disso. Parece haver aí um limbo, uma indefinição. Não é bem isso. Os criadores envolvidos tinham uma idéia central do que seria o espetáculo - uma história tratada no limite entre a realidade e o sonho. Adriana e João Falcão, em vez de escreverem o texto para entregá-lo aos músicos, preferiram que a idéia fosse desenvolvida por todos, mesmo que cada um tratasse de sua área.Dessa forma, ofereceu a Edu e a Chico uns esboços de situações - algo que ela chamou, como conta Edu, de "provocações de música". Isso posto, os dois parceiros sentaram-se para discutir: tal situação deve ter tal tipo de música, tal tipo de arranjo, tal modo, tal andamento. Em seguida Edu fez a música, sozinho, e a mandou para Chico Buarque. Chico ficou uns tempos com a música, até a letra nascer, e devolveu tudo a Edu, que, por sua vez, entregou para Adriana e João.De posse das primeiras músicas já letradas, Adriana sentou-se para escrever os diálogos: ela quer que as falas soem como letras de Chico Buarque. Para que não haja interrupções, para que não aconteça, como quase sempre no teatro musicado, de a música ir para um lado, a fala para o outro. Por isso, também, a produção dará preferência a atores que saibam cantar e, se possível, tocar um instrumento. Será tudo ao vivo, no palco. À vera.Aliás, o próprio título definitivo da peça saiu de uma das composições de Edu e Chico. O autor da melodia mandou uma fita para o letrista, solfejando a melodia, usando as sílabas que se usam quando não há letra - "Nham, nanã, mgbaio" - qualquer coisa assim. "O Chico pega tudo", conta Edu, sempre admirado com o parceiro. "Ouviu aquele ´mgbaio´, lembrou de ´cambaio´, uma palavra que caiu em desuso, e pôs na letra, dando origem ao nome da canção e ao nome da peça."Cambaio quer dizer trôpego, ou de pernas tortas. Na letra, o personagem diz querer uma mulher que o deixe cambaio. "Na peça, essa música é o grande sucesso de um dos protagonistas, que é compositor", conta Edu. "É uma composição que tem muito do som do Miles Davis dos últimos tempos, daquele famoso concerto de Paris", compara. "É uma coisa com acento pop, contemporâneo, mas musicalmente sofisticado, rico", acrescenta. "Acaba sendo uma espécie de baião misturado com... sei lá, uma música sofisticada mas que pudesse fazer sucesso de massa."Edu quer experimentar algo que nuca fez: músicas que tenham diálogos falados intercalados, à maneira de Sondheim - na verdade, à maneira de qualquer ópera, mas que soe com a naturalidade com que soam as composições de Sondheim. "Para não ficar aquela coisa de canta, pára, entra a fala, pára a fala, entra o canto - os musicais da Metro faziam esse tipo de coisa e a gente se perguntava por que motivo o sujeito ia começar a cantar bem naquele momento."A direção musical de Cambaio será do compositor e cantor pernambucano Lenine. "É a primeira vez que faço um musical sem fazer a direção musical", diz Edu Lobo, que só com Chico Buarque compôs O Grande Circo Místico (1980), O Corsário do Rei (1985) e Dança da Meia-Lua (1988). "E pretendo que, daqui para a frente, seja sempre assim: eu cuido da música, outros cuidam de pôr a música em cena, com a visão nova e decansada que eu não teria."

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