Musical 'Crazy for You' trouxe glamour de volta à Broadway

Diretor e produtor de musicais escreve para o 'Estado' sobre a produção que inspirou novo espetáculo de Claudia Raia

Cláudio Botelho - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2013 | 18h57

Crazy for You pode ser considerado um marco na história recente da Broadway: foi o início da retomada do “orgulho do Teatro Musical Americano”. Os anos 1980 ficaram conhecidos pela “invasão inglesa”, ou seja, todos os grandes sucessos da Broadway vinham de montagens de Londres e de compositores britânicos ou franceses. Eram produções mirabolantes em que os efeitos especiais tinham peso nunca antes visto, cenários altamente atraentes e que envolviam grande tecnologia, e tudo embalado por uma pegada musical bastante pop, baladas adocicadas e orquestrações cheias de teclados eletrônicos, algo inadmissível na tradição da Broadway. Exemplos disso são O Fantasma da Ópera, Cats, Les Misérables, Miss Saigon, Evita, todos no estilo ópera-rock, e todos com enorme sucesso de bilheteria. A música americana, ao que parece, tinha sido banida de seu berço original.

 Crazy for You é, na verdade, uma engenhosa adaptação de uma comédia musical dos anos 30, Girl Crazy, com música assinada pelos irmãos Gershwin, significativamente dois dos maiores nomes da chamada “Grande Canção Americana”. O roteiro ingênuo e certamente datado da peça original foi genialmente reescrito por Ken Ludwig (autor conhecido dos brasileiros pela comédia Aluga-se um Tenor), mantendo todo o sabor de época da obra, mas adicionando diversas outras canções dos Gershwin oriundas de filmes estrelados por Fred Astaire e Ginger Rodgers, e alguns outros clássicos como Someone To Watch Over Me, números regatados do baú dor compositores como o hilariante What Causes That, e até mesmo o Concerto em FA, obra sinfônica de Gershwin. Era a receita do bolo com todos os ingredientes colocados no lugar certo: os protagonistas eram uma clara emulação de Fred Astaire e Judy Garland (Harry Groener e Jody Benson), sendo que Judy já havia vivido o personagem no cinema ao lado de Mickey Rooney numa deliciosa versão de Girl Crazy dirigida por Burby Berkeley; números de sapateado que não se viam tão vigorosos e imaginativos desde a remontagem de Anything Goes com Patty Lupone, alguns anos antes; uma orquestração arrebatadora e o mais icônico diretor musical da Broadway à frente de tudo, Paul Gemignani, maestro favorito de Stephen Sondheim.

A direção milimétrica de Mike Okrent e a coreografia espetacular da recém saída do off-Broadway, Susan Stroman, fechavam o pacote e praticamente reinauguravam uma Broadway que tinha perdido o glamour, a alegria e a magia das grandes canções para bizarrices como musicais onde o principal atrativo era um helicóptero sobrevoando a platéia, um lustre que despenca do teto do teatro, e até mesmo as vidas de Jesus de Evita Peron musicadas num estilo “Puccini de churrascaria”.

Mas a vingança chegou. Crazy for You ficou 4 anos em cartaz. Depois dele, vários outros musicais seguiram o mesmo caminho de retomar clássicos e dar-lhes um lustro moderno, valorizando sempre o repertório do melhor que o teatro musical deu ao mundo: Gershwhin, Cole Porter, Irving Berlin, Jerome Kern, e tantos outros. O recente sucesso Nice Work If You Can Get It é praticamente uma cópia (magnífica) de Crazy for You, utilizando o mesmo formato de resgatar um musical antigo dos Gerswhin.

O Tony de melhor musical foi o triunfo após anos de omeletes inglesas com gosto de melado. Harry Groener, indicado ao Tony de melhor ator, como Bobby Child, era a personificação da figura de Fred Astaire em cena, de uma leveza ao dançar e conduzir sua parceira que há muito não se via num palco. Todas as coreografias são inspiradas nos filmes de Astaire e Ginger Rodgers. Jody Benson, que anteriormente fizera a voz da Pequena Sereia no filme da Disney, conseguiu a proeza de recriar um papel que foi eternizado por ninguém menos que Ethel Merman. Merman apareceu definitivamente para o público em Girl Crazy (1931) ao roubar a peça cantando I Got Rhythm e sustentando a famosa sequência de 12 compassos com uma nota aguda. Isso entrou para a história dos musicais e ali surgia a primeira grande “belter” (estilo de emissão vocal moderno para a época) do musical americano. Na versão cinematográfica, Judy Garland repetia a façanha e se lançava nos 12 compassos como quem flutua num mar tranquilo.

Em resumo, Crazy for You é tudo isso. É artesanato de primeira, obra de especialistas na arte maior dos musicais, gente que sabe o que faz. A música de George Gershwin, letras geniais de seu irmão Ira, a eterna marca vocal de Ethel Merman e Judy Garland, a adição de um Fred Astaire estilizado no papel principal, as relíquias musicais com nova roupagem, e um sutil recado aos fabricantes de melado: “a Broadway ainda é um lugar onde a música importa”. Coincidência ou não, após Crazy for You, nunca mais um musical da safra de Andrew Lloyd Weber fez sucesso nos EUA, embora o Fantasma da Ópera continue por lá assustando turistas brasileiros que não sabem que o lustre cai, mas não mata! Já o Homem-Aranha – é uma outra história!

CLÁUDIO BOTELHO É PRODUTOR, TRADUTOR E DIRETOR MUSICAL.

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