Musical brinca com fábulas infantis

Era Uma Vez mostra a passagem tortuosa da infância para a vida adulta

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Amaldiçoados por uma bruxa, um padeiro e a mulher não conseguem ter filhos. Para quebrar o encanto, são obrigados a buscar determinados objetos na floresta, onde acabam topando com Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Rapunzel e outros personagens famosos de fábula infantil. Esse é o ponto de partida do musical Era Uma Vez, versão nacional do clássico Into The Woods, que estreia hoje no Teatro Brigadeiro.

Com texto de James Lapine e composições de Stephen Sondheim, o espetáculo estreou na Broadway em 1987 e logo ocupou lugar privilegiado no panteão dos grandes musicais: cumpriu temporada ininterrupta de 1.260 apresentações e ainda faturou cinco prêmios Tony. Um sucesso nada surpreendente - afinal, mais que uma brincadeira com os contos infantis dos Irmãos Grimm, Era Uma Vez é pretexto para Sondheim discutir sua verdadeira obsessão: jogar alguma luz sobre algo incompreensível para a cultura média americana.

"De fato, é por meio desses personagens das fábulas que o espetáculo chama atenção para as responsabilidades de cada indivíduo a partir de seus atos - e da humanidade como um todo", comenta Felipe Senna, responsável pela direção-geral da peça e regente da orquestra de 15 músicos que se apresenta ao vivo.

Descrentes dos finais felizes que marcam as fábulas, Sondheim e Lapine costuram os contos de Grimm para mostrar como é tortuosa a transição entre a infância e a fase adulta. E a floresta representa a vida, onde estão escondidos os mistérios e perigos. Eles se inspiraram nos escritos de Bruno Bettelheim, psicólogo austríaco autor de A Psicanálise dos Contos de Fadas (Paz e Terra) e para quem as fábulas têm a mesma função das parábolas de Cristo, ou seja, um meio de se transmitir conhecimentos sobre as verdades espirituais ao povo.

Questões morais. "O espetáculo recupera essa função através de bom humor e músicas de qualidade", comenta Senna, que divide o trabalho de criação com Armando Bravi Filho, responsável também pela coreografia. "Ao longo dos anos, os contos de fadas foram amenizados em sua violência até chegarem ao padrão atual, imposto pelos filmes da Disney. Sem questionar a qualidade desses longas, a proposta aqui é resgatar as questões morais mais sérias."

Apesar de todo estudo psicanalítico que o rodeia, o musical é, na verdade, muito engraçado ao criar situações inusitadas, como a dos dois príncipes irmãos, um interessado em Rapunzel, o outro em Cinderela. Também Chapeuzinho Vermelho é mais egoísta do que parece e, com a morte do lobo, troca o manto que lhe dá o apelido por um casaco com a pele do bicho. Cada um deles persegue um desejo individual, até que um encontro inesperado os une, revelando o que acontece depois do mote "felizes para sempre".

"Era Uma Vez representa o ponto de maturação desta arte e se tornou, por essa razão, um grande marco na história do teatro musical norte-americano", observa Armando Bravi Filho.

Na montagem que estreia hoje, os 22 personagens são interpretados por um elenco de 18 atores, entre eles experientes como Keila Bueno (A Bela e a Fera, Chicago, Sweet Charity), que vive a mulher do padeiro, Pedro Ometto (barítono de óperas como Orfeu no Inferno) como o príncipe, e Heloísa de Palma (Hairspray) como Chapeuzinho Vermelho.

QUEM É

STEPHEN SONDHEIM

COMPOSITOR

Nascido em 1930, começou jovem como autor das letras de musicais clássicos como West Side Story (1957) e Gypsy (1959). Logo, tornou-se um dos mais completos e conhecidos autores do musical norte-americano, criando outras obras renomadas como Company (1970).

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