Música viva em um concerto repleto de momentos mágicos

Ninguém prestou atenção quando os músicos da Orquestra do Festival de Budapeste começaram a ocupar seus lugares no palco da Sala São Paulo. Faltavam alguns minutos para as 11 horas da manhã de sábado passado. Mas quando o maestro Ivan Fischer atacou a primeira das seis danças de Bela Bartók, mais de 2 mil ouvidos deram um sinal de alerta a seus donos: aquela orquestra soava diferente, mais brilhante, com uma química de timbres que chegava com mais clareza e com características inovadoras. Que mágica era aquela?

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2011 | 00h00

A resposta estava na disposição espacial dos naipes no palco. À esquerda, os primeiros violinos, e atrás deles os violoncelos; à direita os segundos violinos, e atrás deles as violas; no segundo plano, as trompas à esquerda; no centro as madeiras e à direita os metais; e ao fundo, no centro, os seis contrabaixos, ladeados à direita e à esquerda pela percussão. Das novidades, duas foram destaque durante o concerto: os contrabaixos, de frente para a plateia e fornecendo para as madeiras - e para o público também - o que um músico chamou de "conforto musical"; e os violoncelos, que no Andante cantabile da quinta sinfonia de Tchaikovski, por exemplo, fizeram um solo admiravelmente bem ouvido.

Isso já teria bastado para fazer desse concerto um "acontecimento". Mas acontece que a musicalidade dos húngaros de Budapeste é algo raríssimo. Cada frase era emitida com começo, meio e fim, numa fluência de embasbacar; a ausência completa de obstáculos técnicos aos músicos; a regência notável de Fischer. Tudo que se requer de uma orquestra de primeira linha mundial.

Confesso que torci o nariz quando vi no programa o primeiro concerto de violino de Paganini, compositor mais dado a pirotecnias virtuosísticas do que à qualidade de invenção. Mas o jovem violinista Jozsef Lendvay tirou de letra uma partitura diabolicamente difícil - e deu-se ao luxo de, no bis, fazer outra peça dificílima, um dos caprichos do mesmo Paganini.

Quantas lições num só concerto, que comportava vários níveis de leitura. O contagiante prazer de fazer música daquela centena de instrumentistas privilegiados, por exemplo; e o entusiasmo da plateia, que rompeu um dos mais engessados itens da etiqueta rançosa dos concertos clássicos, e aplaudiu freneticamente após o primeiro movimento do Paganini. De nada adiantaram as reprimendas do público que se julga "entendido": os aplausos foram irreprimíveis. Música viva é isso.

O horário esdrúxulo deve-se ao surrealismo que teima em rondar a Praça Ramos de Azevedo (o concerto estava originalmente marcado para o Teatro Municipal de São Paulo, com pompa e circunstância, mas a reforma não terminou). Esse desleixo obrigou a Sociedade de Cultura Artística a remarcar um dos concertos mais importantes do ano para esse horário em princípio surrealista - e ainda bem que possível numa Sala São Paulo atulhada: enquanto rolava o concerto, no saguão em frente da chegada dos trens, operários trabalhavam na montagem de outro evento.

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