Música viva - e sempre mais emocionante

Ao vivo e em disco gravado nos EUA, Marin Alsop oferece leituras distintas do Concerto de Bartók

O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h07

A eletrizante performance do belo e tecnicamente dificílimo concerto para violino do finlandês Jean Sibelius com a norte-americana de pais coreanos Jennifer Koh, de 35 anos, instaurou uma saudável e atrevida atmosfera de gosto pelo risco no concerto de anteontem da Osesp com Marin Alsop na Sala São Paulo. Koh, medalha de prata do Concurso Tchaikovski de Moscou em 1994, visualmente convida a plateia a participar das pirotécnicas aventuras do solista neste concerto que consegue a proeza de ser ao mesmo tempo interessante do ponto de vista musical e também muito popular - um dos mais tocados, entre os escritos no século 20.

O Allegro moderato, que sozinho dura em torno de 15 minutos (a soma dos dois movimentos restantes), gira em torno de algumas cadências - a primeira delas logo após a exposição do romântico tema principal. Ficou claro que o comando estava com Koh. Marin Alsop e a Osesp a acompanharam numa leitura excelente, embora no final acelerado tenha havido ligeiro desencontro entre solista e orquestra.

Esperava-se, portanto, uma segunda parte tão eletrizante quanto a primeira. E isso, de fato, aconteceu. Marin acaba de lançar, pelo selo Naxos, um CD com o Concerto para Orquestra, de Bela Bartók, regendo sua Sinfônica de Baltimore. A ocasião era interessante para uma comparação entre gravação e concerto ao vivo.

Este concerto - encomendado em 1943 pelo maestro Koussevitzky, da Sinfônica de Boston, para ajudar o então doente Bartók, radicado desde 1940 nos EUA - tem características diferentes em relação a obras anteriores. Bartók, que jamais transigiu com nada, parece ter criado música a caráter para as orquestras do país que o acolheu (e no qual não se adaptou).

Elliott Antokoletz, o maior especialista contemporâneo no compositor, diz que a obra nasceu dos estudos do folclore iugoslavo a partir de registros fonográficos, que ele fez, bancado pela Universidade de Harvard, entre 1941 e 1942. Foi lá que descobriu melodias folclóricas croatas cromáticas a duas vozes. O maior mérito de Bartók entre os que criaram a partir do folclore e o diferencia é, segundo Antokoletz, "sintetizar tudo isso no concerto com algumas das técnicas mais abstratas de composição musical", contemporâneas e também clássicas.

Ouvi bastante o CD durante a semana, acompanhando pela partitura. A performance de Alsop com Baltimore é muito segura, colada ao texto bartokiano. Tudo bem certinho e comportado. Pode ser por causa da responsabilidade maior de uma gravação, que permanece ao longo do tempo. Ora, num CD deve-se justamente fazer o contrário. Ousar, porque a engrenagem da vida musical sobrevive hoje à custa da interpretação; marcar diferença justifica essencialmente qualquer registro. Como fizeram, há pouco, Antonio Meneses e Claudio Cruz ao gravar o concerto para violoncelo de Elgar com a Northern Sinfonia, com concepção inovadora.

Não se trata de pedir que se invente nada arbitrariamente. Apenas transferir para o CD a sensação de risco da situação de concerto. Desta vez, a versão ao vivo foi superior. Marin Alsop, plenamente amadurecida no conhecimento íntimo da obra, pôs fogo numa Osesp empenhada, onde nem os sopros comprometeram. Ao contrário, metais e madeiras, muito expostos no segundo movimento (Jogo dos Pares), corresponderam plenamente.

A mordaz brincadeira de Bartók com a marcha que abre a sétima sinfonia de Shostakovich também recebeu da Osesp uma leitura corretamente mais escrachada que a de Baltimore, contida demais. Na cama do hospital onde recebeu um punhado de dólares de Koussevitzky para estimulá-lo a aceitar a encomenda, o compositor ouviu pelo rádio a sinfonia de Shostakovich, então muito popular nos Estados Unidos. Popularidade imerecida, disse ele ao amigo maestro Antal Dorati, que conta ter ouvido dele o seguinte: "Por isso dei corda para minha raiva". Meses depois, decidiu ironizá-la no quarto movimento, um delicioso intermezzo interrompido.

No embate entre estúdio e palco de concerto, fica a sensação de que sempre haverá um enorme fosso entre um e outro. O primeiro, mais asséptico; o outro, mais "sujo", com intervenções de tosses na plateia e pequenos deslizes no palco - mas vivo, muito vivo. E por isso mesmo, sempre mais emocionante.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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