Música, sonho e silêncio

Prova de Artista acompanha cinco jovens músicos em busca de vaga em uma orquestra

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h07

Atrás de um biombo, para que o anonimato impeça qualquer tipo de avaliação tendenciosa, o jovem músico toca seu instrumento, enquanto, do outro lado, maestros e colegas mais experientes avaliam sua possibilidade de entrar ou não para uma orquestra. Anos de preparo se resumem a alguns minutos de música, em um momento de definição que é o tema de Prova de Artista, novo documentário de José Joffily, que acompanhou cinco jovens músicos em audições para a entrada em sinfônicas brasileiras.

Prova de Artista é o terceiro de uma série de filmes em que José Joffily investiga a vocação. Em O Chamado de Deus, de 2002, acompanhou seis jovens seminaristas e sua dedicação à vida religiosa. Quatro anos mais tarde, com Vocação do Poder, documentou o cotidiano de seis políticos que pela primeira vez concorriam a um cargo público. E, agora, se debruça sobre os primeiros passos no mundo da música.

O violinista americano Byron Hitchcock, músico da Filarmônica de Minas Gerais, tenta uma vaga na Sinfônica do Estado de São Paulo, mas acaba no Rio, na Orquestra Sinfônica Brasileira. Catherine Carignan, fagotista da orquestra mineira, se inscreve na prova da Osesp, mas sua vida tomará outros rumos. Ricardo Barbosa, oboísta do interior de São Paulo, tenta passar da Academia da Osesp para um posto profissional na orquestra. Rodrigo de Oliveira, violinista de São José dos Campos, resolve tentar a sorte em Minas, assim como o violista carioca Rodney Silveira, música da Sinfônica Brasileira Jovem.

A certa altura, o professor de Rodrigo sugere que entrar em uma orquestra é abandonar o sonho de ser solista. Não está fazendo nenhum julgamento sobre o que seria o mais indicado, parece muito feliz com o futuro do aluno. Mas, sem querer, oferece a amplitude de significados que rondam o momento - a audição para uma sinfônica - documentado por Joffily. Como, afinal, equilibrar, na mente de um jovem músico, a oposição entre o sonho da exposição propiciada pela carreira de solista e a atividade às vezes anônima em uma orquestra? Este é um aspecto que, como tantos outros, são explorados apenas rapidamente pelo diretor. A relação com os pais e a família; a formação musical feita no contexto da igreja; a dificuldade, psicológica ou mesmo financeira, que acompanha o jovem que resolve se dedicar a uma carreira na música; a solidão inerente à vida do instrumentista.

São todos temas acessórios, que entram de contrabando na narrativa. No fundo, parece interessar menos ao diretor o contexto em que esses jovens se inserem e mais a maneira como se relacionam com a prova. É, afinal, nesse momento único e carregado de urgência que eles se mostram mais vulneráveis. Quando Rodrigo deixa o palco da Sala São Paulo, consciente de que não realizou uma boa prova, seu olhar questiona a certeza das palavras, com as quais tenta se convencer de que novas chances vão surgir. Catherine desiste da prova da Osesp, resolve ficar onde está, com sua família - e tenta (nos?) explicar que esta foi a melhor decisão. Ricardo, aprovado, não poderia estar mais feliz - e, nos mostra o olhar da câmera, assustado com o futuro que se desenha à sua frente. Prova de Artista não é um filme sobre música - antes, fala de juventude. Mas mostra que, assim como em qualquer interpretação musical, o silêncio - ou o não dito, voluntariamente ou não - às vezes pode se tornar a porção mais eloquente de uma partitura. Ou mesmo de um documentário.

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