Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Música sob as oliveiras

Lutando pela manutenção da vida, quase todos se esqueceram das delicadezas da alma

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2020 | 03h01

Toda a minha alma estremece, diz Jesus nos versos de Franz Huber. A cena é impactante: sabendo próxima sua paixão, o mestre sobe ao Monte das Oliveiras. Olha para Jerusalém e para o seu destino. Chora, verte sangue, agoniza e se sente abandonado até pelos discípulos que dormem. Solidão e agonia extrema: sempre imaginei aquela noite fria de primavera como um momento-chave para entender a dor do mundo.

Os versos de Huber foram musicados por Beethoven em poucas semanas, por volta de 1802. O mestre revisou o oratório (Christus am Ölberge) na década seguinte. O momento também era de agonia para o alemão de Bonn. Vivia as primeiras etapas da surdez. Estava perto de fazer 32 anos. Escreveu uma carta aos irmãos chamada “Testamento de Heilligenstadt”. É um texto com algum desespero, indicações morais, crença na arte e vapores de morte. Fácil entender como a agonia de Jesus dialogava com a de Beethoven. “Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem” (trecho da carta), combina com a frase “A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui, e vigiai comigo” da narrativa dos evangelhos. Jesus é o tenor na obra. Há um serafim soprano e Pedro canta com voz de baixo. A música descreve até o tumulto da chegada dos soldados e termina com um aleluia belíssimo.

O momento da composição do gênio que faria, em dezembro próximo, 250 anos é paralelo a uma grande transição da sua obra. A terceira sinfonia trata do herói e é um passo decisivo para o romantismo. Como muitos sabem, foi dedicada originalmente a Napoleão. Depois, decepcionado com o sonho imperial do corso, Beethoven disse que seria para festejar a memória de um grande homem. Poderia ser Jesus, o próprio Beethoven ou todo radical solitário ao gosto da estética romântica. O segundo movimento da joia musical é uma Marcha Fúnebre. Foi usada em muitas ocasiões de luto, como o enterro de F. D. Roosevelt.

O oratório, composto um pouco antes da terceira sinfonia, mas já no período de retiro para tratar a surdez, traz uma figura de Cristo muito humana. Seu recitativo é um diálogo com a dor do abandono. Bach imaginou a cena, 80 anos antes, de forma teológica, enfatizando Cristo. Beethoven carregou nas cores de Jesus, o homem de 33 anos, quase a idade do autor. Imagino o luterano Johan Sebastian sentindo sua fé ao escrever a Paixão Segundo São Mateus. O mestre barroco se ajoelha em adoração. Ludwig, católico, abraça o homem desesperado olhando para Jerusalém. Ambos são gênios olhando para o fundador do Cristianismo. São duas vertentes tocantes de como a imaginação humana alça voo para o nono coro dos anjos ou para o abismo da dor.

O ano de 2020 teria sido de muita música de Beethoven. Cristo se angustiou porque sabia o futuro. Nós fomos pegos de surpresa pela pandemia porque não conseguimos pensar o minuto seguinte. Muitas áreas sofreram, porém a arte foi fulminada pelo raio da crise. Lutando pela manutenção da vida, quase todos se esqueceram das delicadezas da alma.

Os músicos sofreram muito neste ano. Já não é uma carreira fácil em dias comuns. Há algo da angina no horto: horas, meses, anos de sofrimento, suor e até sangue nos dedos ao apertar cordas. A técnica é um desafio, mas é muito mais fruto da insistência e da disciplina. Fazer seu coração vibrar em cada nota é o passo mais longo e complexo. Posso ensinar quase qualquer pessoa a tocar uma sonata. Trata-se de resiliência física. Pouquíssimos serão músicos profissionais.

A Osesp tinha preparado um programa histórico. Teríamos o oratório de Beethoven. Eu ouviria feliz, na Sala São Paulo, o diálogo da orquestra com o coro. Hoje, pensando entre o dia em que ouvi o anúncio da programação e os sentimentos do ano atípico, existe a humanidade de toda agonia. Sofri como ouvinte apaixonado. Os músicos sofreram ainda mais.

Há alguns anos eu estava no Horto das Oliveiras. A vista é única. Estávamos em uma igreja ortodoxa e uma religiosa mal-humorada elevou a voz com uma aluna minha porque a roupa não cobria tudo da brasileira. Quem não tem alma costuma reparar muito no corpo. O corpo real sofre e agoniza, a alma, como quer o rabino Nilton Bonder, pode ser imoral. Talvez Jesus tenha sofrido também pela freira russa. Sofreu pela epidemia e pelo descaso com a música. Sofreu pelos artistas que dedicaram sua vida a aprimorar a arte e, agora, olham sonhos e projetos despedaçados. Há vários motivos para suar sangue e chorar. Beethoven encontrou o seu e se permitiu seguir o desamparo do Nazareno. A música nos guia e depois nos redime com um Aleluia.

Desejo que a boa música sobreviva a este prolongado deserto cultural. Sem músicos o mundo fica insuportavelmente pequeno e medíocre. Sem Beethoven e sem a Osesp, a cidade de São Paulo vira uma zona devastada imersa em álcool gel. Resta a agonia, no Horto das Oliveiras ou na Cracolândia. Explode a dor e silencia a harmonia. Vida sem o profissionalismo dos músicos é Calvário sem manhã da ressurreição, silêncio apenas. Precisamos sobreviver a tudo. Precisamos diminuir nossa desigualdade social. Precisamos de saneamento básico e de educação. Precisamos acabar com o câncer do racismo. E precisamos de música para que tudo isso possa valer a pena.

Música, na dor, afasta o cálice. Sucesso sem melodias é um equívoco. A agonia passa e a felicidade se fixa no som. Um abraço a todos os músicos do mundo, em especial a minha amiga Olga Kopylova. Se vocês pudessem ver como eu os ouço, veriam que toda dor e alegria da minha existência foi guiada por música. Boa semana musical para todos!

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

 

Tudo o que sabemos sobre:
Leandro Karnal

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.