Música sertaneja ganha enciclopédia

Músico e jornalista, AyrtonMugnaini Jr. lança nesta quinta-feira a Enciclopédia das MúsicasSertanejas (Editora Letras & Letras, 202 págs., R$ 35,00).Trata-se da primeira obra de referência do gênero dedicadaexclusivamente à música dos interiores brasileiros, de ponta aponta do País. Por mais que a expressão "sertanejo" seja associadaaos habitantes do interior do Sul e do Sudeste, lembra o autor,ali não há sertão, mas campo. Sertão é no Nordeste. Com isso, explica a abrangência geográfica dos verbetes- do gaúcho Renato Borghetti ao paraibano Jackson do Pandeiro eà maranhense Dilu Melo. Com isso, peca, também, por não ser abrangente obastante. Existe, por exemplo, uma entrada para o xote, gênero edança, desembarcado no Rio de Janeiro, segundo o autor, emmeados do século 19, pelos passos do professor de dança JoséMaria Toussaint, que vinha da França; mas não há entrada paravaneirão, música típica do Rio Grande do Sul, também de origemeuropéia, trazida pelas companhias habaneiras (de Havana, Cuba)- vaneirão é, por sinal, corruptela de habanero. Ou, ainda: há uma entrada para folia de reis ("festareligiosa folclórica...") mas não há para maracatu, festacabocla que caberia na mesma definição. Ayrton Mugnaini Jr. é paulista mas morou, daadolescência ao início da idade adulta, em Piracicaba e em Lins,no interior. Atribui a isso a aproximação da música sertaneja,ou caipira, de Inezita Barroso (ela prefere "caipira"),Gordurinha, Mário Zan. De volta à cidade, envolveu-se com o pop.Escreveu livros sobre vida e obra de artistas brasileiros eestrangeiros (Elis Regina, Elvis Presley, Caetano Veloso). Participou e participa de grupos pop - Língua de Trapo,Banda Magazine - sem se afastar da música sertaneja. Editou umacoluna sobre o gênero no extinto jornal Folha da Tarde ecolaborou com a Enciclopédia da Música Brasileira, Erudita,Folclórica e Popular (Art Editora, segunda edição em 1988). Sua Enciclopédia menciona muitos nomes que ficaramde fora daquela, incompletíssima, cheia de falhas. Mas suaEnciclopédia também tem falhas - não apenas por ausência denomes, por informações enganadas como por questões conceituais. Sobre alguns problemas, o próprio autor fala, naapresentação, no item Pequenas Advertências, em tombem-humorado: "Ninguém é perfeito, nem mesmo eu. Sei que estelivro (...) traz seu quinhão (ainda que pequeno) de erros emomissos, que têm o grande defeito de só se manifestarem apósserem descobertos" - e aceita previamente que vá ser criticadopor ter escolhido Fulano e não Sicrano para constar de suaseleção. Por exemplo, o "estudioso de cinema" mencionado noBreve Estudo sobre a(s) Música(s) Sertaneja(s), que abreefetivamente o volume, não se chama Salvyano Cavalcante de Paula mas de Paiva; e Geraldo Azevedo não nasceu em Jatobá, mas emPetrolina, ambas cidades pernambucanas. Problema maior parece ser a insistente comparação dofenômeno da música rural (sertaneja, caipira, interiorana)brasileira com a country music norte-americana, tratados como sefossem fenômenos culturais paralelos. Não o são, efetivamente,até porque o country norte-americano é branco e anglo-saxônico(o blues é outra coisa e o cajun é música negra de influênciafrancesa) e as nossas sertanejas são frutos de miscigenação, comformidáveis diferenças regionais. Essa tentativa de aproximação talvez reflita a formaçãodo autor e certamente se reflete em seus conceitos. Menos mal,ainda assim, que tenha sido exposta - quando nada para abrir umdebate entre linhas de raciocínio que, vez por outra, éinsinuado, nunca levado a efeito. E, mesmo que a Enciclopédia não seja enciclopédica,sua importância é inegável. Se você quiser saber quem foiBahiano, Manoel Pedro dos Santos, nascido em 1870 em Santo Amaroda Purificação, dono do primeiro disco gravado da músicabrasileira (o lundu Isto É Bom, de Xisto Bahia, em 1902),que fez sucesso, também, com Ai, Filomena, motivo folclórico em 1915, e Pelo Telefone, de Donga e Mauro Alemeida, em1917, é no trabalho de Mugnaini que a informação é encontrável -e de lá foi extraída. Adotando linha de trabalho acrítica, como cabe à obra dereferência, Ayrton Mugnaini Jr. resume a história de Raul Torresou Bob Nelson, de Tonico e Tinoco ou Chitãozinho e Xororó, deHelena Meireles ou Roberta Miranda, de Paulo Freire ou EduardoAraújo. Comediantes (Zé Trindade, Mazzaropi), grupos vocais(Conjunto Farroupilha, Trio Parada Dura), sanfoneiros(Antenógenes Silva, Alberto Calçada), cantoras (Inezita Barroso,Carmélia Alves), semeadores e colhedores (Catulo da PaixãoCearense, Alceu Valença) estão lá, para consulta. Uma segundaedição pode acrescentar a geração dos anos 90, representada deforma tímida. No lançamento haverá show do cantor Passoca.Serviço - Enciclopédia das Músicas Sertanejas. De AyrtonMugnaini Jr. 202 páginas. R$ 35,00. Quinta, às 19 horas.Shopping Morumbi Open Center. Avenida Doutor Guilherme DumontVillares, 1.210, tel. 5581-2183

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