MÚSICA EM NOVA LINGUAGEM

Matéria de Composição, de Aspahan, propõe viagem ao processo criativo

LUIZ CARLOS MERTEN, TIRADENTES, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2013 | 02h12

E a Mostra Aurora disparou no segundo dia, com a exibição de Matéria de Composição, de Pedro Aspahan. Havia gente em estado de epifania, depois de assistir ao filme que discute o processo de criação na música erudita (e experimental). Três compositores (Guilherme Antônio Ferreira, Teodomiro Goulart e Oiliam Lanna) expõem seu processo e o diretor constrói o filme nos conceitos de desconstrução e criação. Uma casa é demolida. Em cima dessas imagens, cada compositor propõe uma trilha. O filme é outro óvni no cinema brasileiro atual, mas se você pega carona nesta nave, se o seu imaginário lhe permite a viagem, a recompensa é grande.

Você alguma vez não teve vontade de ver imagens, não de choque, mas pelo contrário, tão repousadas que o cinema, de maneira geral tão envolvido na captação do movimento, rejeita? Um dos compositores olha para fora do quadro. Uma eternidade e, então, lentamente, os dedos se movem, quando ele começa a compor. O que se ouve muitas vezes parece só ruído, mas é produto de cálculo, elaboração. O compositor fala do som, com sua duração única. Propõe formas de articulação com outros sons, mas também de estender, prolongar, reinventar esse som. Carlos Adriano, que faz um cinema experimental e transformou 11 fotogramas da primeira filmagem feita no Brasil num média-metragem de rara beleza - Remanescências -, poderia estar dizendo a mesma coisa, substituindo 'som' por 'fotograma'.

A Mostra Aurora cumpre sua proposta de abrir uma janela para o novo na produção autoral independente do cinema brasileiro. Mas a Mostra de Tiradentes, que este ano realiza sua 16.ª edição, não é só a Aurora. Possui outras seções, abriga seminários, presta homenagens. Ontem, lembrando o aniversário da cidade, foi exibido, melhor seria dizer resgatado, um dos clássicos pouco conhecidos do nosso cinema. Há uma história oficial do cinema brasileiro, com seus clássicos. Mas existem filmes que ficam nas margens.

A retrospectiva que o Cinesesc, em São Paulo, realiza sobre Elyseu Visconti, lança luzes sobre um autor com frequência negligenciado. São tantos filmes esquecidos, ou quase. O cinema brasileiro dos anos 1960 e 70 não teria sido tão rico sem Pecado na Sacristia, de Miguel Borges, Possuída por Mil Demônios, de Carlos Frederico, ou Marília e Marina, de Luiz Fernando Goulart. Paulo Gil Soares ocupa um lugar de destaque no panteão dos autores com seu documentário curto Memória do Cangaço. Mas quantos espectadores conhecem Proezas de Satanás na Terra de Leva e Traz, que Tiradentes exibiu ontem?

Algo se passava no Brasil da ditadura militar, em 1967, quando Paulo Gil concebeu sua história de uma cidade interiorana. Atraída pela súbita riqueza de outra cidade próxima, a população deserta, incluindo o padre e a padroeira, deixando o lugar aberto para as investidas do Diabo. Realismo fantástico, em plena explosão do imaginário latino-americano (Cem Anos de Solidão, etc.). Como o novo cinema brasileiro da Mostra Aurora, há um cinema mais antigo, mas independente, visionário, que também vale descobrir.

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