Música e drama no palco

Daniel Barenboim e Patrice Chéreau debatem aspectos da produção de Tristão e Isolda

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Em dezembro de 2007, o maestro Daniel Barenboim e o diretor Patrice Chéreau se uniram para realizar uma nova montagem de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, em Milão. Transmitida para todo o mundo pela internet, a produção marcou a chegada do maestro ao Scala - e a retomada da parceria com o diretor. Nos dias após a estreia, ambos iniciaram uma série de conversas sobre a obra, reunidas agora em Diálogos Sobre Música e Teatro: Tristão e Isolda. Não se trata, contudo, de um livro sobre a ópera de Wagner mas, sim, de uma tentativa de retrato da maneira como o intérprete se aproxima de uma obra de arte.

As conversas se articulam em torno de cinco momentos: o regente e o diretor, aspectos da direção, dramaturgia, a música e grandes temas. O que perpassa todos eles, porém, é justamente a tentativa de Barenboim e Chereau de explicitar os caminhos da recriação artística, na qual Tristão e Isolda é apenas o ponto de partida para discussões de temas como fidelidade à partitura, oposição entre silêncio e som, força e intensidade, caros à produção anterior do maestro, em especial Paralelos e Paradoxos, livro de diálogos com o pensador Edward W. Said.

Há curiosidades sobre a rotina de trabalho, a convivência com os cantores. O aspecto mais interessante, entretanto, parece estar em um paradoxo essencial - o respeito ao texto e a necessidade de reinventá-lo. Tanto na música quanto no drama, maestro e diretor partem do conceito da fidelidade irrestrita; Barenboim chega mesmo a questionar a ideia de intérprete, trocando o termo "interpretação" por "realização física da música"; por sua vez, Chéreau articula a noção de que está nos espaços vazios do libreto, naquilo que ele não diz, a possibilidade de interação do diretor.

No prelúdio do Tristão, Wagner questiona a ideia musical centrada em dissonâncias e resoluções, procurando a ambiguidade do discurso. Para cada certeza, há um novo acorde em gestação, jamais resolvido, que leva o ouvinte a múltiplas possibilidades. De certa forma, o livro segue a mesma toada. A necessidade da criação de um subtexto para os intérpretes, por exemplo, tem a mesma importância que a negação dessas noções no decorrer do espetáculo. Representar não pode ser, na cartilha dos artistas, reinventar.

Como enquadrar, no entanto, a ideia apresentada mais tarde segundo a qual montagens da ópera de Wagner não precisam buscar a compreensão da obra em seu conjunto? Mais importantes seriam os detalhes - e, desta forma, toda interpretação é fragmento, que ganha vida por meio da escolha do intérprete. A resposta parece ser a busca de um significado estritamente musical, que nasce da partitura e não de ideias aplicadas a ela. Para o músico, é um processo natural; para o diretor, um processo em construção. E é a busca por uma linguagem comum, com todas as contradições que ela encerra, que torna o livro fascinante, retrato em movimento da mente dos artistas.

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