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Música do século 20 domina a programação da Sala São Paulo

A Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo é uma das atrações neste fim de semana

JOÃO MARCOS COELHO - ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

15 de novembro de 2012 | 02h10

A música do século 20 domina a programação dos concertos deste fim de semana esticado na Sala São Paulo. É uma ótima - e rara - oportunidade para o público conhecer melhor uma produção musical mais próxima do nosso tempo, sem que isso seja necessariamente sinônimo de música hermética. Ao contrário, o repertório dos concertos da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo e da Orquestra de Câmara da Osesp dão uma boa amostra do caleidoscópio diversificado da criação musical do século 20.

Nesta quinta-feira, 15, e sexta-feira, 16, às 21 h e sábado às 16h30, o pianista Arnaldo Cohen será o solista na Burleske de Richard Strauss com a Osesp, em concerto da temporada 2012 que dá o tom dos demais: há a Passacaglia opus 1, uma das raras obras de Anton Webern amigáveis para ouvidos menos especializados; o Adagio da incompleta 10.ª sinfonia de Mahler, interrompida por sua morte, em 1911; e a suíte sinfônica da ópera O Cavaleiro da Rosa, de Strauss.

No sábado, o maestro Claudio Cruz - spalla da Osesp que acaba de tirar licença por um ano, para dedicar-se inteiramente à regência em 2013 - comanda a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado, que assumiu há pouco, num programa atraente (o concerto será repetido no domingo). Certamente, a música de maior apelo popular é a magnífica versão sinfônica do francês Maurice Ravel em 1922 para os Quadros de Uma Exposição, que o russo Modest Mussorgsky escreveu em 1874 originalmente para piano. Mas a primeira parte é reveladora. Começa com o delicioso poema sinfônico Uirapuru que Villa compôs em 1917, sobre o pássaro amazônico considerado, na mitologia indígena, o "deus do amor".

A obra concertante que completa a primeira parte traz como convidada especial a violista norte-americana Jennifer Stumm. Ela será a solista do concerto do húngaro Bela Bartók, obra escrita no ano de sua morte, 1945. Inacabada, foi terminada por seu amigo Tibor Serly. As 13 folhas de manuscrito são um esqueleto muito pobre, vago ponto de partida da obra, que, assim, deve ser creditada mais a Serly do que a Bartók. Mesmo assim, vale a pena ouvir seus três movimentos encadeados - um Allegro moderato, o Adagio religioso-Allegretto e o final Allegro vivace. É uma maneira agradável de se familiarizar com o universo muito peculiar de um compositor que começa a ocupar com justiça, quase 70 anos depois de sua morte, um lugar decisivo na cena musical do século 20.

A tarde do domingo segue na mesma trilha contemporânea, e com músicos da própria Osesp, integrantes da orquestra de câmara da casa. O regente convidado é o costa-riquenho Giancarlo Guerrero, que vem se transformando numa espécie de curinga da casa (só este ano regeu a orquestra em fevereiro e depois a orquestra do Festival de Campos do Jordão). Mais importante, no entanto, é a participação da ótima Olga Kopylova, pianista titular da orquestra há 12 anos. Ela nasceu no Usbequistão e hoje já praticamente se considera "brasileira".

Ela será a solista do difícil Concerto para Piano e Cordas do compositor russo Alfred Schnittke, morto em 1998, aos 64 anos. É uma obra de 1988 característica do estilo que o diferenciou na música contemporânea, o chamado 'poliestilismo", em que superpõe e explora diferentes estilos e práticas pinçadas no oceano da história da música.

O retrato do século 20 promovido pelo concerto da tarde de domingo é, no entanto, mais diversificado. E por isso mesmo vale a pena assisti-lo para se habituar de um modo bem 'friendly' com a música do nosso tempo. O mexicano Silvestre Revueltas assina a Homenagem a Federico García Lorca, escrita em 1936, logo após o poeta ter sido assassinado na Guerra Civil Espanhola. De Revueltas toca-se hoje apenas a peça sinfônica Sensemayá. Só por isso vale a pena conhecer o tributo a Lorca.

A peça seguinte, o arranjo para cordas do quarteto n.º 8, opus 110, de Dmitri Shostakovich, é um verdadeiro ato de amor de Rudolf Barshai, violista do Quarteto Borodin que estreou obras do compositor. Emigrado para o Ocidente, fixou-se na Inglaterra, onde escreveu arranjos para outros três quartetos (3, 4 e 10). Como tudo em Shostakovich, seu significado é controverso. Oficialmente, o quarteto foi celebrado como tributo às vítimas do fascismo; mas segundo o compositor no controvertido livro Testemunho, de Solomon Volkov, ele teria sido composto sob o impacto de uma visita feita a Dresden em 1960: "O que pus ali foi um cântico russo à memória das vítimas da Revolução". Importa hoje a notável qualidade de invenção desta música extraordinária.

Bartók fecha o concerto com as suas curtas e encantadoras Danças Romenas, ciclo de 1915 original para piano, que ganhou versões alternativas do próprio compositor.

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