Música do diabo e de deus

Do Suplemento Literário[br][br]No centenário do criador de A Canção da Terra, Otto Maria Carpeaux discutia em ensaio significado de sua obra para a vanguarda

, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

2.7.1960

(...) Gustav Mahler nasceu em 7 de julho de 1860, em Kalist, pequena cidade da Moravia, então Austria, hoje Checoslovaquia. Mas não é possível chamá-lo de checo. O ambiente da sua infancia foi o mesmo que produziu seus conterraneos Freud e Kafka (...)

Já vivem só poucos que o conheceram pessoalmente. Mahler é uma lenda. É a figura central da ultima grande epoca musical de Viena. De 1897 a 1907, dirigiu a Opera Imperial, elevando-a a primeiro teatro lírico do mundo naqueles anos. (...)

Depois da morte de Mahler, suas obras foram, durante muitos anos, executadas quase só na Austria e na Holanda, graças aos esforços dos seus discipulos Bruno Walter e Willem Mengelberg. (...) Hoje, as estatisticas da revista "Musical America" mostram que Mahler é, em todos os paises dotados de organizada vida musical, um dos compositores mais ouvidos. (...)

O compositor Mahler, embora tendo, passado pela escola de Wagner e Bruckner, foi um ultimo beethoveniano: pela forma musical e pela emoção romantica. O critico moderno, não só o "moderno", tem o direito de perguntar se essa musica "tardia" (como diria Spengler) sobreviverá. E, para não ser injusto, começará com a tentativa de determinar a posição de Mahler na evolução historica. É assunto dos mais complexos.

(...) É o elemento classico-vienense que contribuiu para perturbar, em Mahler, a influencia preponderante de Wagner e Bruckner. O resultado foi aquilo que se costuma chamar de "crise pós-wagneriana" de 1900, a mesma na qual também se debatia um Reger. E da qual só se saiu pelo caminho de Debussy e Ravel.

É certo que Mahler não conseguiu superar, musicalmente, essa crise. Mas superou-a espiritualmente. Por isso chegou a exercer influencia consideravel na musica vienense moderna (...)

Todas essas contradições violentas estão reunidas, superadas; transfiguradas na "Canção da Terra" (...). É sua obra capital indiscutida, talvez a mais comovente e certamente a mais emocionada que neste seculo se escreveu. (...) Quem pretende intimamente compreender essa musica, tem de aceitar o emocionalismo, tem de vivê-lo assim como Mahler o viveu, cuja profunda sinceridade está provada pela maneira por que sacrificou a vida à arte (...).

Sem duvida, esse emocionalismo super-romantico não é, em nenhum sentido da palavra, moderno: nem é da moda nem é da nossa época. A musica de Mahler é "impura". É, fatalmente, suspeita às gerações novas, ocupadas e preocupadas com novas experiencias tecnicas. Mas quem sabe se esta não parecerão, daqui em alguns anos, tão pouco modernas como hoje nos parecem os experimentos tecnicos de Mahler. (...)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.