Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

Música de enfrentamento

Leo Cavalcanti traz o jorro criativo de Religar, seu álbum de estreia, de volta ao ''sagrado'' palco

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

A "música de enfrentamento" de Leo Cavalcanti, que ele também chama de pop transcendental, é uma soma de Michael Jackson com Jackson do Pandeiro, influências do flamenco, atitude roqueira e fundamentos de ioga. Do palco para o CD e de volta ao palco, ele faz jorrar sua torrente criativa no show de lançamento de seu primeiro álbum, Religar (yB Music em parceria com a DeLeDeLa), hoje no Sesc Pompeia. Leo recebe como convidados Tatá Aeroplano e Péricles Cavalcanti, que pela primeira vez participa de um show do filho, ambos seguindo "caminhos musicais bem diferentes".

Influenciado inicialmente pelos Beatles, o compositor, cantor e músico de 26 anos começou a tocar violão (presente do pai) aos 9 anos, estabelecendo desde então uma relação intuitiva com a música. Com 13 anos, passou a tocar percussão (principalmente pandeiro) na banda do pai e foi convidado por Sandra Peres e Paulo Tatit para fazer parte da Palavra Cantada. "Tinha 14 anos quando fiz com eles a turnê de Canções Curiosas. Sempre tive vontade de cantar, mas o que me puxou para a música foi descobrir Beatles por mim mesmo na época do Anthology. Até então ouvia Beatles em casa por inércia, mas ali descobri a beleza da canção e me apaixonei pela música", diz Leo.

Entre o pop e o experimental, ele é um dos nomes de ponta da nova geração da música paulistana, que, favorecido pela configuração da grande metrópole, tem total "desapego aos gêneros e liberdade de trânsito". Mas pode ser identificado como uma espécie de "Michael Jackson do Pandeiro". "O que faço tem a vontade de ter essa eficiência do r&b americano, sem medo de ser pop. Acho que tem a coloquialidade de Jackson do Pandeiro, esse suingue brasileiro. E influência do flamenco, da música hindu, oriental, no sentido de intenção de romantismo espiritual. É essa coisa do enfrentamento da alma, da beleza da existência, dessa manifestação que tem no flamenco, que vem da música árabe." Ele dança flamenco há um ano e vai gravar o clipe de Ouvidos ao Mistério, principal faixa do CD, com participação de sua professora.

Envolvido com ioga há seis anos, Leo chegou a entrar em conflito porque a ioga exige uma disciplina diurna e a música ("pelo menos do jeito que eu faço") é noturna. Entre escolher uma ou outra, acabou ficando com as duas: "Para mim música e ioga se retroalimentam, se complementam, e as duas têm de andar juntas para eu me realizar naquilo que faço. Quer dizer, a música é um instrumento de meditação, de contato com a força interna, com aquele lugar dentro da gente que é mais puro e não tem nome. Realmente quero utilizar a música como canal de acesso a esses lugares dentro da gente".

Repleto de significados nesse sentido, Religar é o movimento do retorno para dentro da natureza humana, contra a "estagnação da banalidade", mas também do individual para o coletivo. Leo compõe já criando arranjos e fez tudo sozinho num estúdio caseiro. Testou as canções ao vivo, mas ficou um ano e meio afastado do palco, imerso na gravação do álbum. Foi um longo processo de procura de timbres e troca de ideias com os músicos de sua banda.

Confiança. Leo é muito convicto do que quer, então abrir espaço para os músicos atuarem como parceiros, não meros executores de suas ideias, foi um desafio para ele como diretor musical. "É uma questão de confiança. Eu me vi com muito medo de perder a essência do trabalho, quando vi que na verdade não é isso, eles acrescentam, as coisas são gostosas construídas juntos. Ao Décio 7 e ao Cris Scabello devo esse aprendizado de conseguir trabalhar em grupo e de permitir que os outros contribuam", diz. Pontuadas pela sinceridade, canções como Medo de Olhar pra Si, Frenesi de Otário, Inalcançável Você refletem situações que ele viveu.

Além de Décio e Cris, que dividem a produção de Religar com ele e os arranjos - também com o dedo dos outros músicos da banda, Guilherme Held e Marcelo Dworecki -, Leo contou ainda com a colaboração de Betão Aguiar (coprodutor em quatro faixas), Tatá Aeroplano (parceiro dele em Chuvarada), Marcelo Jeneci (piano em Acaso) e Tulipa Ruiz, no duo vocal de Sem (Des)Esperar. Um quarteto de cordas participa de Inalcançável Você, Dentro e Chuvarada, convivendo em harmonia com naipe de metais, programações e beatbox. Porém, além da voz incomparável (entre suave e intensa), é o violão de Leo o condutor de uma sonoridade de sangue quente, de herança latina, "aflamencada".

Este ano ele pretende "estender as linguagens do disco", gravando outros clipes e um álbum de remixes. Em março canta Dancin" Days e outras canções para o programa da série Som Brasil, da TV Globo, dedicado a Nelson Motta. "Mas quero especialmente estar no palco, que é o lugar sagrado, onde eu entro em contato com o meu divino. É essencial para mim, preciso me nutrir dessa energia do palco, no sentido de ser o momento de alinhamento, o momento de se emocionar, de viver a música de verdade."

LEO CAVALCANTI

Teatro do Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Hoje, 21 horas. De R$ 4 a R$ 16.

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