Música contemporânea, enfim, fora da toca

Apresentação do dia 21 na Sala São Paulo foi um marco

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2010 | 00h00

Sabe-se que a música contemporânea jamais conseguirá massificar-se junto ao grande público, por sua própria natureza. Mas também não pode ser condenada ao recalque quase absoluto. Agora ela parece estar saindo da toca e dos guetos tribais tradicionais de modo coordenado. Invade a Sala São Paulo em horário nobre, tem os concertos gravados e transmitidos pela Rádio Cultura FM. Desse jeito, ela corre o bem-vindo risco de ampliar seu público. A regrinha da frequência na exposição pública pode revelar-se ferramenta importante na inclusão das músicas contemporâneas na nossa vida musical. Para os músicos, é chance dourada de chegar em condições dignas até o grande público. E do lado deste último, trata-se de rara oportunidade de abrir os ouvidos para novos sons. Afinal, nada mais conscientizador do que ouvir a música do nosso tempo (ainda - e mesmo - que perturbadora).

O concerto do dia 21, na Sala São Paulo, foi extremamente importante por um motivo fundamental: inaugura um movimento de concertos mais ambiciosos, envolvendo maior número de músicos. E inclui, aos poucos, concertos de música contemporânea como algo natural na agenda musical da cidade. Mais importante: envolveu estudantes bolsistas do 41.º Festival de Inverno de Campos do Jordão ao lado de seus professores em repertório atualíssimo.

Ligeti. Atualíssimo ao menos para nós, brasileiros. Afinal, e apesar de o húngaro György Ligeti (1923-2006) ser um clássico contemporâneo, Foi a primeira vez que um grupo de músicos brasileiros interpretou seu importantíssimo Concerto para Piano, de 1986; outra première brasileira foi Partiels, do compositor francês Gérard Grisey, peça de 1974 e pura representante da música espectral (em Partiels, ele decompõe o timbre de um trombone em laboratório e em seguida explora seus componentes; pena que a peça seja desequilibrada, desembocando num gratuito finale estilo teatro musical).

Mas houve mais do que pioneirismo. Houve alto nível de interpretação. Paulo Álvares, irretocável no dificílimo concerto de Ligeti, conjugou métricas superpostas e irreconciliáveis entre si (nesse sentido, o concerto de Ligeti é semelhante, como resultado sonoro, ao de Gilberto Mendes, de 1981). A regência precisa de Eduardo Leandro ajusta-se bem demais a este tipo de repertório.

Outros destaques foram as duas performances de obras camerísticas. Primeiro, Peaux, Peles, uma das partes de Pléiades, obra de 1978 do grego Iannis Xenakis. É um clássico do século 20, para seis percussionistas abraçando geograficamente o amplo palco da Sala São Paulo. E as atraentes e acessíveis Seis Bagatelas para quinteto de sopros de Ligeti. Em ambos os casos, execuções de primeira ordem, envolvendo bolsistas e professores do Festival.

Num concerto desses, com tantas obras e compositores desconhecidos do grande público, felizmente complementaram-se o folheto do programa, com uma esclarecedora entrevista do pianista Paulo Álvares, e comentários objetivos e acessíveis de Silvio Ferraz sobre as obras. O público, assim, pôde mergulhar apetrechado na música do nosso tempo.

COTAÇÃO: ÓTIMO

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