Música à deriva exige silêncio

Um dos exemplos da perfeição no equilíbrio da excelência nas composições e na improvisação impecável na música contemporânea instrumental tem nome: À Deriva. O quarteto vai se apresentar no sábado, no Teta Jazz Bar. Mas deveria também um dia subir ao palco do Auditório Ibirapuera ou, até mesmo, da Sala São Paulo, no imponente prédio do edifício da Estrada de Ferro Sorocabana, templo da música erudita que abriga a Orquestra Sinfônica do Estado.

ROGER MARZOCHI, Agência Estado

03 de março de 2011 | 11h00

No show de sábado, o quarteto deve tocar as cinco novas músicas que estarão no próximo disco. O mesmo repertório, incluindo músicas do À Deriva II (2008), foi apresentado no mês passado, em show no espaço artístico alternativo Serralheria, para 11 pessoas: três da família dos músicos, dois do próprio espaço. O ingresso custava R$ 10. Não muito longe do local, Jimmy Jagger, filho de Mick Jagger, abriu o show do LCD SoundSystem, com ingressos custando por volta dos R$ 160. A comparação parece cruel. Mas não é. O público escolhe sua diversão. O que não significa que esse mesmo público não possa virar os olhos ouvindo jazz hoje, amanhã, daqui a 15 anos ou nunca. O ponto não é exatamente esse. O problema está em outro público: o da música erudita e do jazz.

As casas de jazz hoje em dia sofrem de um efeito britadeira. Invariavelmente, o público do Jazz nos Fundos, Syndikat, HSBC Brasil e do próprio Teta, por exemplo, ainda se comporta como se estivesse num bar qualquer, jogando conversa fora. Ouvir jazz é uma balada sim, mas muito diferente da proporcionada pelo rock-pop-dance, sem qualquer juízo de valor, não há expressão melhor que a outra. Mas há diferenças importantes. Pode ter azaração num bar de jazz, mas não atrapalhar todos que querem ouvir o som, e não a cantada. Pode reunir os amigos para comemorar o aniversário, mas a mesa não pode ficar no mesmo espaço do palco. Pode ir a um show de um artista estrangeiro, mas não pra falar do novo DVD do artista, já que o mesmo está diante dessas criaturas.

Já nos templos da música erudita, o público faz silêncio... até demais. Aplaude, mas muitas vezes naquele gesto programado ao fim de cada movimento. Qualquer "uhuuu" no meio será fatalmente repreendido. Sorte existir mentes como a do maestro João Maurício Galindo, da Jazz Sinfônica, que em entrevista à reportagem no ano passado, disse não achar "gafe" expressões espontâneas de emoção nesse ambiente. Se as palmas fora de hora geram estranhamento protocolar, imagine a rigidez auricular. Alguns ainda discutem se Villa Lobos é um compositor erudito. O que dizem então até hoje sobre Radamés Gnattali, após tantas críticas em sua época? E de Carlos Malta, que afirmou no sábado que o zabumbeiro é tão erudito quanto um violinista? Malta é erudito ou popular?

A resistência à tendência de manter os tímpanos na emoção confortável e a língua na ponta dos pés é rara, mas acontece. No caso em questão, foi na Serralheria, apesar dos pesares. Beto Sporleder (sax), Daniel Müller (piano), Guilherme Marques (bateria) e Rui Barossi (contrabaixo) subiram ao palco naquela sexta-feira, dia 18 de fevereiro. Mal se ouvia a respiração da plateia.

O show começou com "Carvoeiro", composição nova do baterista e, logo no início, é possível perceber que a acústica do estúdio da Serralheria não é boa. Mas há o som possível e a necessária concentração da plateia, sem qualquer esforço. A música é arrebatadora. Todas, sem exceção. Antes do show, eles decidiram emendar cinco músicas de cara. Seguiram ligadas: "Rebentação", de Daniel, que está no disco À Deriva II; a nova de Rui, "Il Cane Vuk"; a também nova "5 Haicais", de Rui e Guilherme; "Menina", música de Rui; e "Bolero para Mariana", música de Beto, também do segundo disco.

Era difícil determinar onde começava uma e terminava a outra, relembrando muito o último disco "Suíte do Náufrago", uma suíte de sete movimentos. Era como se as cinco músicas fossem uma só, não por serem ligadas, mas por terem um sentido muito forte de estarem juntas. Tocaram ainda "Tão Longe" e "Silêncio V", ambas de Beto, que também estão no disco à Deriva II e outra música nova de Rui, "Reminiscência". A maioria dos solos era de puro diálogo, sem excessos. Ninguém ousava aplaudir entre os solos, havia necessidade em conhecer as respostas, sem interferências, como num debate enriquecedor.

Guilherme chegou à sutileza de tocar bateria com as mãos, as pontas dos dedos, esfregando a mão na pele da caixa. Beto ora no saxofone tenor, ora no sax soprano, parecia chegar a um ponto, a uma melodia já possível de presumir, mas escolhia outro caminho, muitas vezes caindo num lamento profundo, numa consternação de uma beleza impossível. Daniel, o mais zen da turma, ao piano e rhodes, tecia seus laços, construía junto com Rui a rede de acordes para Beto, o mais rebelde, soprar vento e tempestade. Ele chegou a tocar um instrumento turco chamado zurna na música "Il Cane Vuk", o único instrumento que declaradamente não sabe tocar.

"Ele gostou da zurna", disse Beto aos amigos da banda sobre a reação da reportagem àquele som. "Mas ele não sabe tocar isso. Seria muito melhor se soubesse", lascou Rui, sorrindo. "E ele não gostou do nome da música nova dele, ''Menina''", brincou Beto. Por que "Menina"? "Eu compus inspirado por uma música do Guinga, ''Senhorinha'' (também assinada por Paulo César Pinheiro), por isso eu queria um nome que lembrasse ela de alguma maneira..." Todos perdoados. É um desperdício uma banda como essa ser atrapalhada por qualquer chiado inconveniente. É um desperdício para o público e todas as bandas e artistas. Eles merecem aplausos espontâneos, vaias bem pontuadas ou aquele cochichar chique de reprovação, muito bem comportado. Nunca um ruído desprovido de qualquer reação à fruição da arte.

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