'Museus nunca são neutros', diz expert

Pesquisadora britânica vem ao País e fala de favela, carnaval e Pinacoteca

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2013 | 02h15

A museóloga Viv Golding, diretora de Pesquisas e professora da School of Museum Studies, da University of Leicester, Inglaterra, é adepta de uma visão aberta do museu no mundo. Viv vê a instituição com potencial de funcionar como uma fronteira onde se dá o aprendizado, onde se forjam identidades e conexões entre grupos diversos e suas histórias. Tem trabalhado com isso, com êxito, em instituições como Caribbean Women Writers Alliance no Horniman Museu; no Pitt Rivers Museum de Oxford; no Museum of World Culture in Sweden Robben Island and District Six in Cape Town (África do Sul).

Golding é uma das principais convidadas da 23.ª Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus (ICOM), de hoje ao dia 17, na Cidade das Artes, no Rio. Ao Estado, ela falou do interesse em parcerias com o Museu Favela da Maré, no Rio, e a Pinacoteca, em São Paulo.

Diz que o racismo está vivo, "como nos tempos coloniais", e que é preciso combatê-lo, assim como o sexismo. E mostrou-se surpresa com os problemas e a falta de interesse no Museu Afro Brasileiro, em São Paulo. "Talvez vocês estejam perdendo um bonde. A Tate Modern acaba de iniciar colaboração com artistas da África", afirmou, dizendo que lhe recomendaram, em Londres, começar conversas para um acordo de colaboração com o Carnaval brasileiro.

Há 10 anos, a Europa e a América do Sul eram alvos de um novo jeito de estabelecer museus, estratégia adotada especialmente pelo Guggenheim, em um esforço de, por franchising, globalizar e vender novas instituições ao mundo. A sra. acredita nessa estratégia de construir grandes supermercados de arte como forma de democratizar acesso?

Museus, como pessoas, não são ilhas. São partes de unidades maiores. Os entornos dos museus do mundo estão embutidos em histórias de dificuldades, geralmente servindo a forças imperialistas e filosofias colonialistas de discriminação; hoje, eles existem em um mundo economicamente desigual. Eu argumento que esses fatores são pontos de partida válidos para fazer do mundo um lugar melhor se os museus forem trabalhar com comunidades locais, nacionais e internacionais. Concordo que nossa missão seja harmonizar as economias e o mercado global, mas não em detrimento de nossas funções fundamentais, notadamente a educação. Talvez possamos transformar nossas metáforas. Vamos retornar à do jardim. Se trabalhamos com ela, vemos as pessoas como plantas que precisam ser regadas para crescer, e partimos de uma pedagogia humanista, que é infinitamente preferível à metáfora do supermercado, onde a humanidade é sacrificada no altar do lucro. Nos supermercados, só os ricos podem comprar, mas, no jardim, todos podemos imaginar. No Reino Unido, temos o "right to roam" (o direito de todo cidadão ao espaço público), o que dá um acesso especial à nossa paisagem e que foi resultado de uma luta de muitos anos, direito protegido e organizado pela Ramblers Association. No Brasil, vocês motivaram o mundo com essas ideias. (O brasileiro) Paulo Freire é uma inspiração. Ele falou de modo poderoso contra o sistema "bancário" de educação e sua promoção da justiça social para as comunidades pobres se disseminou para além de sua nação.

Patrocínios e parcerias são problemas para administradores de museus. Como conciliar a gestão a interesses de marchands e do sistema de capital?

Patrocínio é uma questão que os museus não podem ignorar, mas considerar cuidadosamente. Fatores locais vão afetá-los, mas, no Reino Unido, temos sorte de ter um fundo governamental. Ademais, temos linhas de financiamento para projetos especiais. Por exemplo: no Horniman Museum de Londres, onde trabalhei (1992-2002), fomos bem-sucedidos em ganhar verbas da loteria Heritage Lottery Funding para melhorar o acesso de deficientes e conectar o museu com os jardins. Também ganhamos verbas para projetos especiais, como o 'Inspiration Africa!' com escolas, artistas e escritores. Mas, quando fui do Departamento de Educação, consultamos nossos espectadores e decidimos não aceitar patrocínios do McDonald's ou da British Petroleum por considerarmos antiético. Por outro lado, o Museum of Mankind aceitou patrocínios para a exposição sobre a Amazônia e sofreu com protestos do público e um grande debate ético, notadamente por causa da destruição das florestas, povos e culturas. Para mim, patrocínio estatal é o primeiro e almejado ideal. Dito isso, eu sugiro que se considere cada patrocinador caso a caso.

A sra. ouviu a respeito do Museu Favela da Maré, no Rio? Sei que defende questões relativas à negociação entre o museu e as complexidades da colaboração integrativa com a comunidade. Museus podem ajudar populações pobres? Podem mudar expectativas de vida?

Ainda não visitei o Museu Favela Maré, mas meu grupo no ICOM, o ICME (instituição que congrega Museums of Ethnography) quer começar algum trabalho colaborativo lá após a conferência. O agenciamento é uma preocupação, como deveria ser em todo o mundo. A prática do ICME na favela será programada em oposição ao que foram os tempos vitorianos no Reino Unido, quando visitantes ricos pagavam para visitar asilos e dopar lunáticos. Notamos que o "dark tourism" tem aumentado em locais que tratam do Holocausto e de genocídios. Mas meus colegas do ICME se interessam por desejos genuínos e por dividir expertise e conhecimentos. Queremos trabalho colaborativo com pessoas engajadas no que a antropóloga Christina Kreps chama de "museologia apropriada". O artista JR (francês de identidade desconhecida que trabalha ações de arte pública) atua nessa perspectiva e que admiro.

Em um de seus livros, a sra. trata da teoria do feminismo de mulheres negras como apoio de sua análise. Raça e racismo são um tema candente no Brasil hoje, por causa das ações afirmativas. Como a sra. relaciona a questão com os museus?

Vejo raça, classe e gênero em interação e nos interstícios no discurso e na sociedade. Contesto os que veem a história como um exemplo de zona pura de escolaridade em destaque. Museus nunca são neutros e acredito que trabalhamos por um bem maior para todos. Minha vida foi transformada pela educação. Minha história pessoal é a de uma pessoa originada no operariado e de herança étnica mista (romana, judia, irlandesa) e cresceu na pobreza. Fui criada por avós, pais e tios num cortiço. Não tínhamos banheiro ou vaso sanitário em casa, nem água corrente e cômodos. Eu não era particularmente esperta, tinha dislexia, mas meus professores me deram apoio. Hoje trabalho para apoiar outros como eu, que têm algum tipo de desvantagem. Janet Vitmayer, diretora do Museu Horniman, disse que vocês fazem no Brasil um grande trabalho na Pinacoteca de São Paulo. Talvez possamos fazer algum trabalho colaborativo com eles, assim como na favela.

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