Museus debatem a própria sobrevivência no Masp

Propostas giraram entre a 'morte dos museus', pesquisa educacional ou cooperação entre instituições

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2010 | 21h06

Representantes de mais de 20 instituições reunidos no Masp. Foto:  Divulgação/MinC

 

Representantes de mais de 20 museus e instituições culturais, como o Masp, a Pinacoteca, o Auditório Ibirapuera, Cinemateca Brasileira, Itaú Cultural e outros, reuniram-se nesta quinta durante todo o dia no auditório do Masp, na Avenida Paulista, para debater o tema Sustentabilidade das Instituições Culturais no Brasil. O Ministério da Cultura foi o anfitrião do encontro, que contou com a presença do secretário executivo do MinC, Alfredo Manevy, e do especialista francês Xavier Greffe, professor da Sorbonne.

 

O debate teve pontos controversos. José Roberto Teixeira Coelho, curador chefe do Masp, falou em "debilidade organizacional, administrativa e empresarial" das instituições culturais do País, algumas delas em "situação cronicamente inviável", e disse que seria interessante analisar o problema da "morte" de museus e institutos. "Elas (as entidades culturais) também morrem, como tudo na vida", ponderou. Também propôs que se discutisse a diminuição da "presença autoritária do Estado e da arrogância da iniciativa privada" nessas instituições.

 

O empresário Roberto Teixeira da Costa, que integra conselhos do Museu de Arte Moderna, Fundação Padre Anchieta e Museu Lasar Segall, definindo-se como um "pedinte profissional" do setor, refutou as teses de Teixeira Coelho e citou o caso de revitalização da Bienal de São Paulo (que quase foi a nocaute após a Bienal do Vazio, mas renasceu com uma mostra vigorosa, a 29ª, a ser aberta em 25 de setembro). Para Teixeira da Costa, o empresário de hoje tem uma sensibilidade muito mais clara em relação à cultura que não tinha antes.

 

"Quando você consegue uma parceria, tudo é possível", considerou. Segundo ele, a agenda da cultura ainda vai estar durante muito tempo atrelada à questão da educação, que a precede, porque os orçamentos têm de priorizar a educação. É preciso também perder o preconceito e ampliar a noção do que merece atenção, afirmou. "O hip-hop é cultura, tudo é cultura".

 

Eduardo Saron, do Itaú Cultural, pediu a criação de um Inep da Cultura (o Inep é o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), para a "construção de métricas", para acompanhar com dados objetivos o impacto do mundo da cultura e das artes nos outros segmentos da economia. Saron considera que há ainda muito amadorismo no planejamento cultural. "O Itaú Cultural só se relaciona com o MinC por meio da Lei Rouanet", afirmou, lamentando que não haja um fórum permanente de troca de experiências.

 

Cooperação cultural - O especialista francês Xavier Greffe fez a defesa da adoção de um modelo mais eficaz de gestão que chamou de "instituições públicas de cooperação cultural", que contenham em suas composições tanto representantes do poder público quanto agentes privados, com o ente público numa espécie de equilíbrio de poder com as empresas privadas. "As empresas que têm o dinheiro têm seus próprios interesses culturais e não vão dar recursos àquilo que não lhes interessa", analisou.

 

O empresário Mário Cohen, gestor do Auditório Ibirapuera, disse que uma das principais dificuldades é o da instituição cultural mostrar a relevância de sua atividade. Lembrou de quando trabalhava nas Organizações Globo e teve a ideia de propor a criação do Museu da Língua Portuguesa. "A primeira vez que falei nisso, me perguntaram: mas qual é a relevância? quem irá nisso?". Sua sorte é que a família Marinho gostou da ideia, e hoje o museu é um grande sucesso.

 

Greffe apregoou que o debate em torno do tema não seja meramente técnico, mas que abrace a causa da "sustentabilidade social", também falou na necessidade de se estimular um tipo de "mecenato popular", baseado em fontes de recursos como as emergentes empresas da área de tecnologia. Ele considera superados os modelos atuais, e criticou inclusive o modelo francês: "Temos políticas de arte bem fortes, mas não temos políticas culturais".

 

Alfredo Manevy, do Ministério da Cultura, disse que a intenção do encontro era o de "olhar para a frente, fazer as propostas do futuro", porque está na hora de as instituições culturais planejarem com antecedência suas ações, com "plena confiança" num cenário mais perene e equilibrado. Manevy acredita que a instituição do novo Fundo Nacional de Cultura, com recursos diretos "blindados" pelo orçamento federal (livres de remanejamento), possibilitam essa confiança.

 

O mecanismo, semelhante aos endowments, prevê a criação de fundos setoriais que serão geridos já a partir deste ano pelo Ministério da Cultura. José Luiz Herência, Secretário de Políticas Culturais do MinC, anunciou que o governo federal quer que o modelo seja adotado em todo o País em níveis de Estados e Municípios.

 

O Ministério da Cultura pretende antecipar os recursos do novo Fundo Nacional de Cultura antes mesmo de a reforma da Lei de Incentivo ser aprovada pelo Congresso. Tem cerca de R$ 250 milhões para os novos editais. As reuniões dos comitês técnicos do fundo setorial acontecerão em Brasília entre os dias 08 e 10 de setembro. Cada setor tem seus representantes, e alguns já estão escolhidos, como por exemplo o Fundo Setorial das Artes Cênicas, com Ermínia Silva (Circo), Henrique Rodovalho (Dança) e Eduardo Barata (Teatro).

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