Museu recupera história do Queen

Banda é tema de exposição permanente no prédio em Montreux onde funcionou até 2003 o Mountain Studios

Eduardo Vessoni, Especial para O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2014 | 02h05

MONTREUX - A estátua de Freddie Mercury segue de pé com seu braço direito erguido e punho fechado, em referência a um de seus gestos mais icônicos sobre o palco. A poucos metros dali, o histórico Mountain Studio continua tocando clássicos do Queen como se o último álbum estivesse em processo de gravação - e fãs ainda escrevem mensagens emocionadas na porta dos fundos do estúdio, 23 anos depois da morte do compositor e líder da banda britânica.

Conhecida como cenário paradisíaco de um dos festivais de música mais cobiçados do planeta, a esnobe Montreux presta homenagem a um de seus ex-moradores mais ilustres.

Entre 1979 e 1993, a banda Queen foi proprietária do Mountain Studios, um conjunto de salas de gravação construído pelo legendário Tom Hidley, designer californiano.

Atualmente, o local funciona como um museu dedicado à carreira de uma das mais importantes bandas de rock do mundo.

O acervo do Queen - The Studio Experience parece não dar conta da monumentalidade de uma banda que revolucionaria os padrões musicais da época, mas abriga peças dos figurinos que Freddie Mercury usou em turnês internacionais, como as calças da edição de 1985 do Rock in Rio, no Brasil, e letras de músicas rabiscadas pelo baterista Roger Taylor, como a vertiginosa Ride the Wild Wind (1991).

O visitante fica paralisado também diante de instrumentos como a bateria cromada Ludwig de Roger Taylor, o microfone Shure Sm 85 em que Mercury fez sua última gravação e o sintetizador Yamaha Dx7 usado em registros como Who Wants to Live Forever.

Dá até para passar o tempo tentando adivinhar as palavras do tabuleiro de palavras cruzadas que era usado pela banda nos intervalos das gravações.

Inspiração. Montreux não só fez história com seu bem-sucedido festival de jazz que acontece na cidade, há quase 50 anos, como foi também inspiração para o surgimento de clássicos do rock.

O Cassino de Montreux, onde funcionou o estúdio do Queen, teve suas portas fechadas em 1971, após um incêndio durante um show de Frank Zappa & The Mothers of Invention. Naquele dia, os músicos do Deep Purple estavam na cidade para uma gravação e o ocorrido virou a letra da música Smoke on the Water, canção de 1971.

O cassino reabriria suas portas em 1975, não só como salão de jogos de azar mas também como endereço do Mountain. Em 1979, o Queen adquiriria o estúdio ao voltar à cidade para a pós-produção do álbum ao vivo Live Killers. Curiosamente, um ano antes, durante as gravações do álbum Jazz, os ciclistas do Tour de France passavam por Montreux e serviriam de inspiração para Freddie Mercury compor Bicycle Race e o guitarrista Brian May escrever Fat Bottomed Girls.

Enquanto funcionou, entre 1975 e 2003, o estúdio recebeu nomes de peso como Nina Simone, Iggy Pop, Rollings Stones, David Bowie e Led Zeppelin.

Com seis álbuns gravados até então e uma fama internacional que tirava o sossego dos artistas, o Queen encontrou refúgio seguro e tranquilo para seguir produzindo seus trabalhos seguintes naquele destino isolado às margens do lago Genebra.

Freddie Mercury chegou a ter residência nos arredores de Montreux. "Se você quer uma alma em paz, venha para Montreux", teria dito o músico.

Conhecida como Duck House, a casa aparece na capa do álbum Made in Heaven, lançado em 1995 com a imagem de Mercury na mesma posição em que ficaria imortalizado na estátua de bronze de três metros feita pela artista checa Irena Sedlecka, na Place du Marché.

Histórias. Certa noite, enquanto o Queen gravava no estúdio, David Bowie chegou ao local acompanhado de Claude Nobs. Aquela noite improvisada marcava mais um clássico da banda, a faixa Under Pressure, um dos hits do décimo álbum do Queen (Hot Space, gravado entre setembro de 1981 e março de 1982).

Sob a produção musical de David Richards, que adquiriu o estúdio em 1993, o quarteto chegou a gravar sete álbuns no Mountain Studios, incluindo Innuendo (1991) e Made in Heaven (1995), trabalho derradeiro que Freddie Mercury não viu concluído.

A exposição em cartaz em Montreux não se perde em sentimentalismos e faz a banda parecer viva em cada um de seus espaços de exibição como letras rabiscadas por John Deacon com uma caneta vermelha de tons intensos, ingressos de shows de turnês mundiais expostos como troféus em estantes de vidro e o círculo dourado no chão do estúdio que marca para sempre o local onde Mercury esteve de pé para a gravação de seu último vocal, em "Mother Love", em maio de 1991.

Réplica. No entanto, o ambiente mais disputado de toda a exposição é a sala de controle de som, onde Mercury gravou e escreveu suas últimas canções. O local abriga uma réplica da mesa de mixagem Neve 8048 e o gravador multipista Studer A80, considerado um dos melhores modelos disponíveis na época. Durante a visita, é possível manusear o aparelho para ver vídeos e escutar áudios do acervo da exposição.

O Queen permanece vivo também nas paredes externas do antigo estúdio, onde fãs escrevem até hoje mensagens nostálgicas, felicitações de aniversário e desejos de longevidade.

E nem mesmo o desfile esnobe de mulheres em salto agulha sobre o calçadão e os carrões importados que se exibem nas avenidas do centro de Montreux conseguem ocultar a fama do Queen naquelas terras helvéticas.

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