Museu quer ser rival de Guggenheim

O Guardian britânico, publicou na semana passada a notícia de que o multibilionário francês François Pinault pretende construir um museu na ilha Seguin, que praticamente comprou da Renault e, nas antigas instalações da fábrica de automóveis. a intenção é rivalizar com o Guggenheim, de Bilbao e ter um lugar exclusivo para expor sua coleção de arte. Seu império econômico inclui a casa de leilões Christie´s, portanto, acervo é o que não vai faltar na sua ilha do Sena.Mais uma vez, o Guggenheim, projetado por Frank O. Gehry, além de provocar uma saudável ciumeira, dá margem a possíveis equívocos. A Tate Galery montou a Tate Modern e houve uma série de menções a Bilbao. Nova York não ficou fora e a Fundação Guggenheim encomendou um projeto ao mesmo Frank O. Gehry. Esses futuros ou projetados museus serão riquíssimos, recheados com obras de grandes artistas que podem ser vistas em diversas partes do planeta, incluindo São Paulo. Será muito bom para o mundo que Pinault construa o ?seu próprio? museu, mas o cometimento de Bilbao implica uma série de questões submersas. Foi um milagre? Foi, e com as pedras muito bem calçadas para que ninguém se afogasse. Contou, em primeiro lugar, a lucidez e maturidade de empresários e a vontade política do governo basco. ?Depois, a participação de Gehry, que teve a oportunidade rara de criar uma obra-prima da qual ele mesmo corre o risco de ser um diluidor, como já é possível perceber no projeto nova-iorquino ? embora genial, colocando a caótica estrutura metálica sobre as águas e criando uma alegoria para a falsa noção de estabilidade do império. O grande lance do arquiteto-escultor em Bilbao é que ele faz com que as pessoas visitem a cidade não para ver obras expostas, mas para ver a escultura metálica às margens do Rio Nervión. Quem já viu uma centena de Picassos não precisa, teoricamente, ir a mais um museu para admirar mais um quadro dele, a não ser que seja aficcionado ou especialista, um profissional na matéria. Bilbao era destituída de atrativos e Gehry inventou algo inédito para ela. É como ir à Capela Sistina quantas vezes for possível. Ou a Chartres. Ou a Jerusalém, com a Mesquita de El-Aqsa dominando em azul e dourado o Monte do Templo. Não foi, propriamente, a Fundação Guggenheim que salvou Bilbao, mas a inventividade artística de Gehry, voltada para um lugar apagado. Um dos efeitos é que muitos dos visitantes saem decepcionados com as mostras provisórias, enquanto o acervo está sendo montado, mas ficam encantadas com o museu. As pessoas vão até lá por causa da gigantesca instalação fixa de Gehry, em pedra e titânio, como poderiam ir ao Rio de Janeiro por causa da paisagem única da capital mítica do País. Pinault, de qualquer forma, percebeu muito bem outro lado do segredo de Bilbao, um projeto geral de reurbanização, que implica participação e conseqüência na vida diária dos cidadãos, econômica e culturalmente: o conjunto Gehry-Gehry-empresários-governo mudou o dia-a-dia privado e público da cidade. O museu francês deverá ser o centro de um plano amplo de desenvolvimento. Porque um museu a mais ajuda muitíssimo, mas não resolve, sem um concerto social que, se for o caso, leve ao aproveitamento de potenciais já existentes. Novo gênero? ? A revista Le Point do dia 1.º de setembro registra que pode estar surgindo um novo gênero literário, que chama de autoficção. Com isso, teríamos uma mistura de fatos reais e imaginação, ao redor da figura do autor, sob a máscara do narrador. Como resultado, temos obras ambíguas e polêmicas nos fundamentos.

Agencia Estado,

09 de setembro de 2000 | 20h51

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