Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Museu Nacional da República apresenta a mostra 'Cuba, Mucho Gusto'

Com filmes, cartazes, instalação e fotos, exposição traz a ilha até a cidade de Brasília

RAFAEL MORAES MOURA - O Estado de S.Paulo,

23 de novembro de 2012 | 02h21

Que país é Cuba? Após a revolução de Fidel Castro, a ilha foi palco de um dos episódios mais emblemáticos da Guerra Fria - a crise dos mísseis, quando o mundo escapou por um triz de um conflito nuclear. O país resiste como pode à margem do sistema capitalista, e mesmo assim pulsa, vibra e arrebata com sua arte multifacetada. Desperta paixões e rancor em medidas proporcionais, seja entre a esquerda nostálgica ou aqueles que escaparam do regime para seguir a vida em outro lugar.

São muitas as respostas possíveis para definir Cuba - há também os mojitos e os charutos, os estereótipos mais fáceis - e parte delas pode ser conferida na exposição Cuba, Mucho Gusto (Cuba, Muito Prazer), aberta ao público desde quarta no Museu Nacional da República, em Brasília, onde fica até o dia 2. "Queremos que as pessoas descubram a Cuba dos cubanos, não a do sistema, não a socialista, mas a do povo, dos cortiços, das cores, dos sons, da rua", disse ao Estado a curadora da mostra, a artista plástica mineira Ivana Panizzi. Há negociações para incluir São Paulo e Rio no roteiro.

Cuba, Mucho Gusto apresenta um farto menu degustação do que os artistas cubanos têm de melhor a criar. O acervo reunido inclui 130 fotos, 30 filmes (entre eles, um documentário com o mesmo nome da mostra, exibido pela primeira vez), mais de cem cartazes de filmes, uma instalação.

Também devem integrar a comitiva a diretora do Instituto Cubano de Arte e de Indústria Cinematográficas, Aline Rey, a artista gráfica Yamily Brito e o diretor geral da Fototeca de Cuba, Nelson Ramírez. Haverá oficinas de fotografia e artes gráficas, palestras sobre cultura cubana, cinema, literatura, projeção de filmes (a programação completa pode ser conferida em www.cubamuchogusto.com.br).

Abertura. Ivana já deu a volta no mundo, acompanhando o marido diplomata, e tem um carinho especial por Cuba, onde estudou artes plásticas. Em 1990, chegou à ilha durante o colapso da União Soviética, época em que faltava tinta, pincel, papel no Instituto Superior de Arte, quando tudo era artigo de luxo. As dificuldades persistem, mas hoje o cenário é diferente, avalia Ivana.

"Há uma mudança, uma cultura de abertura, você percebe, por exemplo que a homossexualidade é mais tolerada. Hoje em dia, os cubanos podem sair mais de Cuba, existe uma abertura política", diz ela, que atualmente reside na Tanzânia. Para sinalizar esses novos tempos, a temática homossexual ganha destaque.

Para trazer um pouco da ilha caribenha para Brasília, os organizadores contaram com o apoio da produtora Cinevideo, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e das autoridades cubanas, que, via Ministério da Cultura, facilitaram a liberação do material e o contato com artistas. Cuba, Mucho Gusto ocupa os dois andares de um prédio anexo, o andar térreo do museu e parte do segundo - da música às artes plásticas, há um pouco de tudo e uma preocupação em não deixar escapar nenhum detalhe.

Um exemplo são as fotografias da exposição, disponibilizadas pela Fototeca de Cuba, que traçam uma deliciosa crônica do país caribenho, enfocando a rotina dos camponeses, a decadência escancarada na fachada dos prédios, a vibração das ruas, o beijo flagrado de um casal, o orgulho patriótico grafitado nas paredes. Não poderia faltar, claro, o icônico retrato que Alberto Korda registrou de Che Guevara, uma das imagens-símbolo do século 20.

Em um dos trabalhos mais irreverentes, Ramírez mescla imagens capturadas das ruas com uma "intervenção capitalista", inundando o horizonte de Havana de ícones do consumismo, como letreiros da Coca-Cola e da Apple.

"Não é uma crítica ao regime, a conclusão quem tira é o próprio espectador. Para alguns, essas marcas são projetos de vida, para outros são símbolo de poluição, do capitalismo desumanizado. Quis trabalhar com presente e passado, expectativas e futuro", disse Nelson Ramírez ao Estado. E Cuba está mudando? "O mundo inteiro mudou, seria ridículo se Cuba não se transformasse também. O Brasil não está mudando?", questiona.

Um dos xodós dos organizadores é a instalação La Conversación, que reúne 99 barquinhos de madeira de tamanhos variados. "Eles traduzem o momento de hoje de Cuba, quando o país enxerga a alteridade e se relaciona com o mundo, com o outro. A vida é muito difícil para os cubanos, que são muito parecidos conosco. Cuba é um farol que ilumina todo o Caribe, um país pequeno de alma grande", acrescenta o diretor do museu, Wagner Barja. Uma alma que transborda no museu de Niemeyer.

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