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Museu Internacional de Arte Naïf luta para se manter funcionando

Neta do fundador, Tatiana Levy trabalha para dar uma gestão mais profissional ao espaço

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

15 de maio de 2012 | 03h09

RIO DE JANEIRO - Joalheiro, mecenas, acima de tudo um apaixonado por arte, o francês feito carioca ainda adolescente Lucien Finkelstein legou à família e ao Rio a maior coleção de arte naïf do mundo. São seis mil obras de mais de 120 países, reunidas em quatro décadas de viagens pelos cinco continentes, sendo as mais antigas datadas do século 15.

Em 1995, ele fundou o Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), para compartilhá-las e divulgá-las. Em 2008, aos 76 anos, morreu desgostoso, vítima de um ataque cardíaco, ao ver o museu fechado, por falta de patrocínio. Nos anos seguintes, o funcionamento foi irregular, possível somente com o agendamento prévio, a despeito dos esforços de sua diretora, Jacqueline Finkelstein, filha de Lucien.

Sua neta Tatiana Levy trabalha agora para dar uma gestão mais profissional ao espaço, reaberto há vinte dias graças a investimentos nacional e estrangeiro. A intenção é perpetuar sua existência. A localização é superprivilegiada: o casarão centenário, tombado, fica colado à estação do trenzinho que leva os visitantes ao Corcovado, no Cosme Velho.

Por conta disso, e pela inclusão do destino em guias turísticos da cidade, a coleção é visitada principalmente por quem vem de fora (somente 30% do público é de moradores). O Mian tem ainda um potencial pouco explorado que está ganhando força com Tatiana, egressa da área pedagógica: a interação com as crianças, que se identificam facilmente com a pintura e a escultura de nascimento espontâneo, que não seguem escolas artísticas e cujos criadores são autodidatas.

Um programa educativo foi desenhado ao mesmo tempo em que o espaço expositivo era modernizado: três janelões, sobre os quais antes pendiam quadros improvisadamente, foram fechados com painéis de MDF, de modo a uniformizar a parede principal do salão e aumentá-la em 4 metros de altura e 7 metros de extensão. No subsolo, as vitrines foram abolidas, deixando as telas mais agradáveis aos olhos.

O museu está ganhando nova identidade visual. A iluminação foi suavizada e agora tem filtro UV. Outra novidade é o audioguia - por enquanto, apenas em português. Legendas em braile estão para chegar. A partir de agosto, o funcionamento deve se estender pelos fins de semana.

A reserva técnica, inundada em 2010 por conta de chuvas fortes, que derrubaram o telhado, foi recuperada, e ganhou exaustores e desumidificadores. As 300 telas danificadas pela água ainda estão comprometidas.

A verba para a recuperação estrutural, de 35 mil (R$ 87,5 mil) veio do fundo holandês Prince Claus, destinado a socorrer acervos que sofrem com desastres naturais. Outros R$ 400 mil, usados para as demais melhorias, vieram da prefeitura do Rio, que no passado fazia repasses ao Mian.

A nova gestão conseguiu recursos de um edital da Secretaria Municipal de Cultura de 2011, e está participando de outros quatro editais públicos. Conversas com empresas privadas, que poderiam investir no Mian via Lei Rouanet, estão neste momento em andamento.

"O museu foi gerido pelo Lucien Finkelstein e nunca houve de fato um esforço sistemático para levantar recursos dessa forma. Estamos garantidos por 2012, mas falta uma verba fixa de manutenção. A meta é nunca mais fechar. Eu acredito no poder da arte, no diálogo imediato do visitante com a arte naïf", diz Tatiana, envolvida diretamente com o Mian há um ano, mas íntima do acervo desde criança, dados os laços familiares. Em homenagem ao avô, considerado um protetor pelos artistas naïfs brasileiros, criou uma salinha que conta a sua rica trajetória.

Ela quer que as obras viajem pelo País e acredita que os eventos que o Rio está para receber (Copa do Mundo, Olimpíada) serão úteis para lhes dar mais visibilidade. No segundo andar, montou a exposição Naïf +20, que pega carona na conferência da ONU Rio + 20, no mês que vem, e reúne quadros que tratam da questão ambiental.

É o melhor ponto para se apreciar a maior tela de arte naïf do mundo: Brasil, Cinco Séculos, da paulista Aparecida Azedo (1929-2006), com 1,40 metro de altura por 24 de comprimento, cujos desenhos retratam nossos diferentes ciclos econômicos, desde o descobrimento.

O xodó é outra grande tela: Rio de Janeiro, Gosto de Você, Gosto Dessa Gente Feliz, da carioca Lia Mittarakis (1934-1998), de 4 metros de altura por 7 metros de comprimento, uma detalhada e colorida visão panorâmica da cidade. Nessa reabertura, o público descobre ainda o que são as molas do Panamá, telas decorativas bordadas em camadas. Elas foram dispostas baixinho, para que as crianças possam tocá-las.

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