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Museu do Louvre recebe a arte islâmica

Um dos mais importantes museus do mundo vai inaugurar coleção com dezoito mil peças originais

LÚCIA MÜZELL, ESPECIAL PARA O 'ESTADO' ,

14 de agosto de 2012 | 03h08

PARIS - A mesma França que custa a encontrar uma fórmula eficaz para acolher a imigração magrebina vai abrir, em 22 de setembro, as portas do seu museu mais prestigiado, o Louvre, para uma das salas de exposição de artes islâmicas mais impressionantes do mundo. Dezoito mil peças vão contar 1,2 mil anos de história da civilização islâmica em três continentes, da Espanha à Índia, em uma coleção rica em cerâmicas, tapeçarias e objetos em pedra, metal, marfim e cristal.

Em um palácio em que a história se conta em séculos, os quatro anos necessários para erguer o novo departamento de Artes Islâmicas passaram num piscar de olhos, desde que o presidente Nicolas Sarkozy lançou a pedra fundamental do projeto, iniciado ainda sob Jacques Chirac, em 2003. Nesta época, a França intensificava esforços para estreitar laços com suas ex-colônias na África muçulmana, países com quem a laicidade republicana até hoje tem dificuldades em se relacionar.

"A relação entre a França e o mundo islâmico é muito especial, e desde a sua criação, o Louvre sempre ocupou um papel central: os mais antigos objetos islâmicos da França faziam parte das coleções reais e foram parar no Louvre na abertura do museu, logo após a Revolução Francesa", conta Sophie Makariou, diretora do Departamento de Artes Islâmicas. "Mas é verdade que as aquisições haviam caído bastante desde a véspera da 2ª Guerra até 2003." Este período é marcado pela independência da Argélia, do Marrocos e da Tunísia.

Naquele ano, uma parte apertada do museu mais visitado do mundo foi destinada ao acervo de artes islâmicas, com a promessa de que uma verdadeira ala seria construída nos anos seguintes. "Este projeto nasceu da constatação que a arte islâmica foi marginalizada durante muito tempo, disposta em uma simples seção do departamento de Antiguidades Orientais, sem uma sala própria que valorizasse uma das maiores coleções do mundo", comentou o diretor do museu, Henri Loyrette.

O novo departamento recebe agora os últimos retoques entre as quatro fachadas da Cour Visconti, que passou por um longo trabalho de restauração. Ao centro, o arquiteto francês Rudy Ricciotti e o famoso designer italiano Mario Bellini assinam um projeto não tão ousado quanto a pirâmide que o japonês Ieoh Ming Pei conseguiu cravar em frente à entrada principal do Louvre, 23 anos atrás. Ainda assim, as ondas metálicas douradas do telhado do espaço prometem mexer, mais uma vez, com os brios dos franceses mais reticentes à pós-modernidade.

A gigantesca estrutura de 135 toneladas é sustentada por apenas oito finos pilares, dando a impressão de que o teto plana como um tapete voador sobre o novo departamento. Instalado pronto, e composto por 8,8 mil pedaços montados como um quebra-cabeças, o telhado translúcido foi parar no meio da secular Cour Visconti graças ao savoir-faire da mesma empresa que cobriu o British Museum, de Londres, e posicionou o domo do Reichstag, o palácio do Parlamento alemão, em Berlim.

"Este telhado combina com as obras que vai cobrir, que sempre estiveram sob o sol e o céu azul. Transparente como uma libélula, ele permite diferentes visões das fachadas da Cour Visconti e traz poesia ao conjunto", filosofa Bellini.

O maior desafio foi não abalar as estruturas do museu nem provocar vibrações que pudessem afetar as valiosas obras que decoram o Louvre - a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, repousa a poucos metros dali. Tudo isso tem um custo: 98,5 milhões de euros, financiados em 30% pelo próprio museu e o Estado francês, e o restante por mecenas de países muçulmanos e fundações de apoio à cultura. Somente a Arábia Saudita entrou com 17 milhões de euros, mas também o rei do Marrocos, o emir do Kuwait, o sultão de Omam e a presidência do Azerbaijão contribuíram para tirar o projeto do papel, em plena Primavera Árabe.

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