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Sérgio Augusto
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Museu do futuro

Depois de muito pelejar, consegui recuperar o conteúdo de um empoeirado zip drive da Iomega que já nem tinha mais onde plugar, e qual não foi minha surpresa ao reencontrar em seu recôndito anotações que julgava para sempre perdidas. Fósseis digitais de múltipla serventia (combustíveis para algumas reflexões, assuntos para conversas fiadas e desfiadas, sugestões para epígrafes, títulos e até epitáfios), continuam uma mixórdia de ideias e lembranças à espera que as organize um aplicativo mais esperto que o Evernote e similares. Aqui vão algumas, como as encontrei: sem ordem e quase sem liames. Não me recordo em que circunstâncias cheguei à maioria delas, nem se seria capaz de processá-las em meu modesto Cuisinart cerebral com vista a alguma coisa menos evanescente que uma coluna de jornal.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2015 | 02h05

Comecemos com os apontamentos mais curtos - de tamanho, mas não de sabedoria, sem modéstia vos digo. São de um tempo em que ainda acreditava que, com mais de seis pessoas (quatro, nas contas de Albert Camus), a sociedade talvez ficasse menos suportável, limite que as mídias sociais, então inexistentes, incumbiram-se de alterar, para baixo.

Foi quando descobri (ou comecei a desconfiar) que a gente passa a maior parte da vida a dizer "ainda é cedo" ou "agora é tarde"; que a melhor coisa que você pode dizer sobre a maioria das pessoas é que elas são biodegradáveis; que o objetivo principal da filosofia é ensinar a mosca a escapar do frasco; que se os automóveis pensassem, um Rolls-Royce seria mais angustiado que um táxi; que a melhor cura para a nostalgia é uma boa memória.

Naquele ano (fim do século passado), notei que os cegos veriam menos ainda que nos anos anteriores, porém mais que nos anos seguintes; que ler sobre colesterol faz mal à vista; que o ponto de interrogação nada mais é que um ponto de exclamação gagá; que de balé só sabia (e ainda sei apenas) uma coisa: nos intervalos, as bailarinas fedem que nem cavalos; que os poetas se deitam mais cedo que os contistas e estes mais cedo que os romancistas (sobre os hábitos dos dramaturgos nada sei); que E. M. Cioran errara na porcentagem ao dizer que qualquer pessoa inteligente ou decente odeia a metade dos seus contemporâneos; que a crônica já foi o ornitorrinco da prosa, por sua riqueza de recursos, mas corre o risco de virar o unicórnio literário se um dia os jornais acabarem (subestimei a internet). E afinal desisti de analisar o humor, não por temer a concorrência de Freud, mas por entender que analisar o humor é como dissecar um sapo: poucas pessoas se interessam e o sapo, coitado, morre.

Narrar, ainda concordo com isto, é jogar pôquer com alguém que pode olhar suas cartas. Narrar no sentido de escrever um conto ou um romance, não um artigo ou ensaio. Outra descoberta: só os fanáticos e os sinais de rua apontam sempre na mesma direção. Descoberta, não, confirmação.

Outra confirmação exumada do zip drive: a mediocridade da poesia de Louis Aragon, o mais célebre intelectual totemizado pela máquina de propaganda do PC francês. Seus versos lá não estavam (para isso existe a Plêiade), mas um comentário mordaz de outro poeta, o catalão Gabriel Ferrater, sim: "Aragon só fez boa poesia quando Hitler invadiu a França, um preço alto demais para tão irrisória compensação". Fiquei aliviado.

Na certa, no meio de um daqueles papos furados sobre o paraíso e o inferno, em que todo mundo, menos o papa (se bem que o atual talvez pense diferente), concorda que o Inferno, apesar do calor, promete ser mais animado, a lucidez de um guatemalteco que muito admiro (acertou: Augusto Monterroso) me chamou a atenção para esta verdade incontestável: o problema maior, se não único, do Céu é que de lá não se pode ver o céu. Deus? Continuaria nos detalhes, como acreditavam e proclamaram Flaubert, Mies van der Rohe e Aby Warburg, se os detalhes não tivessem sido, hélas!, apagados.

Qual o motivo mais forte para se viver num país democrático, considerando-se que a liberdade é hors concours ou condição sine qua non? O melhor de se viver numa sociedade democrática é não precisar falar nem ouvir falar em "transição para a democracia". Junto a essa observação encontrei um punhado de tiradas políticas - e politicamente incorretas - quase perfeitas para o Twitter, que, aliás, ainda não era sequer um brilho nos olhos de Jack Dorsey e seus três parceiros. Uma: jamais faça um tirano banguela sorrir (confesso que o sentido mais profundo dessa me escapa). Outra: o grau de civilização de um país é inversamente proporcional à quantidade de percussão na sua música.

Por falar em politicamente incorreto, pincei da carta de um universitário australiano, para qual veículo enviada esqueci de anotar, esta definição sui generis: trata-se de uma doutrina que uma minoria delirante e ilógica abraçou com o intuito de provar ser possível pegar um pedaço de cocô pelo lado limpo.

Perdida no meio daquelas frases lapidares de Eduardo Galeano que os jornais desta semana repercutiram encontrei uma, que, salvo engano, me foi dita pelo próprio Galeano quando trocamos uns dedos de prosa, na redação do também finado semanário Opinião, na década de 1970: "Duvido dos gravadores, porque sei que bebem à noite".

Como as demais, já foi arquivada nas nuvens, numa pasta protegida por um backup, com o nome de Museu do Futuro. É um necrotério de citações cujo nome tomei emprestado a Enrique Vila-Matas, um dos vários autores a que recorri para escrever esta coluna. Já que a moda é terceirizar, por que não terceirizar este espaço?

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