Museu de Curitiba firma sua identidade

Quem disse que museu de arte precisa de centenas de milhões de dólares para ser construído? O Guggenheim Rio, que pretende ter 21 mil metros quadrados de área construída, está orçado entre US$ 180 milhões e US$ 200 milhões e ainda não se sabe se sairá do papel. O Novomuseu de Curitiba, que será inaugurado amanhã, tem 34 mil metros quadrados de área construída e custou apenas US$ 15 milhões. Ou seja, menos do que a franquia Guggenheim está cobrando (US$ 20 milhões) só para autorizar o uso da marca em terra brasilis. Milagre? Não. Simples questão de bom senso e adequado uso dos recursos públicos. "Decidimos que, em vez de comprar uma franquia internacional, seria mais relevante culturalmente criar um museu com forte identidade com o que é o Brasil e a arte brasileira", frisou ao Estado o governador do Paraná, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner. "Isso fica evidente desde o exterior do prédio, traçado por Oscar Niemeyer." Dedicado às artes visuais, design, arquitetura e urbanismo, o Novomuseu é um dos maiores espaços expositivos do Brasil. Soma oito salas, que totalizam 17 mil metros quadrados. Com luz natural e pé-direito de 12 metros, os amplos ambientes podem acolher peças de grandes dimensões, freqüentes na arte contemporânea e de difícil convívio com a maioria dos museus em atividade no País. Na inauguração, esse gigantismo estará evidente: haverá a abertura simultânea de sete mostras, que envolvem uma seleção de aproximadamente 480 obras que percorre todas as áreas de atuação da nova instituição. Há mostras históricas e atuais de arte contemporânea, exposição de design e, mesmo, uma homenagem ao autor do prédio, com maquetes e desenhos. Mais importante do que essa programação, no entanto, é o fato de a estrutura física estar sendo construída ao mesmo tempo que a estrutura funcional. Trata-se de absoluta raridade na certidão de batismo dos museus brasileiros: finalmente, cumpre-se o ideal museológico de formatar-se idéias e conceitos para nortear a administração cultural da nova instituição ao mesmo tempo em que se fazem as paredes de concreto e molda-se a estrutura física do edifício. Há igual peso e importância para ambas as operações. Gestão - A conceituação e estruturação da administração cultural do espaço está a cargo da Base 7, nova empresa de criação e gestão de projetos culturais criada pelo ex-superintendente do Itaú Cultural, Ricardo Ribenboim, com os também egressos do Itaú Cultural Arnaldo Spindel (administração) e Maria Eugênia Saturni (museologia). "Fizemos um estudo de vocação da nova instituição e elaboramos um projeto conceitual e normativo completo, que inclui procedimentos, programas informatizados e atividades de treinamento", esclarece Ribenboim. O acento extra no design e arquitetura deve-se, explica ele, "à visibilidade internacional alcançada por Curitiba nas questões de urbanismo e pelo Brasil no setor de design e arquitetura". Entre os tópicos mais relevantes desse extenso trabalho está a decisão de atrair coleções privadas de arte por meio da criação da maior reserva técnica (armazenagem de obras de arte em ambientes climatizados) do País. "A intenção é oferecer abrigo, segurança e cuidados para coleções importantes, com cessão em regime de comodato, de modo que se possa ter em pouco tempo um grande acervo, que vai alimentar uma programação de prestígio a um custo bastante acessível", frisa Ribenboim. Outro aspecto a destacar na conceituação do uso do museu é sua ação educativa e de intercâmbio cultural. "O Novomuseu vai desenvolver e acelerar o atendimento à demanda cultural da população", conta Ribenboim. "Para isso, vamos utilizar uma estrutura tecnológica já existente no Paraná e que será ligada ao museu." Conforme esclarece o secretário de Estado de Assuntos Estratégicos do Paraná, Alex Brandão, as escolas e universidades estaduais paranaenses vêm sendo interligadas em rede desde 1995, por meio de um sistema desenvolvido e operado pela Unysis. Já são 180 prédios e 2 mil computadores, capazes de gerar ou receber videoconferências e partilhar conteúdos de bibliotecas e bancos de dados. "O Novomuseu vai ser integrado a essa capilaridade", observa Brandão, "e fornecer ao corpo docente meios para preparar seus alunos não só para aproveitar melhor as visitas às exposições, mas para desfrutar de seus conteúdos a distância." Para alimentar esse sistema, o Novomuseu terá o próprio banco de dados e site, "elaborado por profissionais especializados com formação em história da cultura e da arte, em tecnologias da informação e da comunicação", diz o projeto da empresa Base 7. "É indispensável que o museu cumpra sua dimensão de agência democratizadora da cultura", sustenta o documento. Além das amplas salas de exposição, o prédio tem jardim de esculturas, biblioteca e, em anexo, uma vila cultural com seis ateliês e 20 apartamentos, para artistas convidados a bolsas-residência. Esta é característica inédita em museus brasileiros de arte. Duas épocas - A estrutura física do prédio do Novomuseu tem uma história interessante, que se desdobra em duas épocas. O prédio principal foi projetado por Oscar Niemeyer em 1967, para ser o Instituto de Educação do Estado. A construção, de concreto protendido, impressiona pelas dimensões de seus vãos livres. É mais bem resolvida do que o Pavilhão do Ibirapuera, em São Paulo, feita mais de uma década antes por Niemeyer. Em vez das numerosas colunas de sustentação, que dificultam o uso do espaço expositivo do Ibirapuera, o prédio projetado para Curitiba utiliza poucas e essenciais paredes, que sustentam a estrutura ao mesmo tempo que modulam a área útil. O prédio só foi construído (em parte) em 1976. Não chegou, porém, a sediar a escola. Suas finalidades foram desviadas para abrigar centenas de saletas burocráticas da administração estadual. A transição para museu começaria, ironicamente, no impulso gerado pela disputa de diversas capitais brasileiras pela franquia do museu norte-americano Guggenheim. Curitiba engajou-se nessa corrida e, para a primeira visita do presidente do Guggenheim ao Brasil, Thomas Krens, o governo do Paraná solicitou a Niemeyer retrabalhar e atualizar seu projeto. A maquete ficaria pronta em outubro de 2001. A construção seria iniciada nos primeiros meses de 2002. Pelo novo estudo do arquiteto, ao prédio antigo se somou um anexo em formato de olho, que fica à frente e acima da antiga construção, articulando-se a ela por meio de sinuosas rampas que lembram (e ampliam) idéia utilizada pelo autor no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. O Novomuseu está implantado em área arborizada de 150 mil metros quadrados (Parque do Papa), na região central da capital. Os recursos para a construção foram obtidos junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid). Trata-se do mais ambicioso projeto cultural do atual governo Jaime Lerner. Inaugurada em final de mandato, a nova instituição está em estágio tão avançado de constituição e funcionamento que, mesmo aos mais pessimistas observadores da cena cultural paranaense, não parece lógico que possa sofrer descontinuidade durante o futuro governo de Roberto Requião (PMDB), opositor de Lerner. "Este museu é o primeiro sinal de que o Brasil chega ao século 21", frisa um entusiasmado Frans Krajcberg. O escultor acredita que a nova instituição "será uma referência poderosa, atraindo boas mostras do mundo todo e inscrevendo o Paraná no circuito internacional dos museus". Novomuseu. Abertura amanhã (dia 22), às 18 horas (para convidados). Mostras ficam em cartaz até 9/3. Rua Marechal Hermes, 999, Curitiba. Tel. (0--41) 3822-3732. Mais informações no site www.novomuseu.org

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