MUSEU DE CARA NOVA

Após reforma, o Rijksmuseum, de Amsterdã, investe na renovação de seu acervo

ANTONIO GONÇALVES FILHO , ENVIADO ESPECIAL, AMSTERDÃ, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h12

Fechado nos últimos dez anos para reformas, o Rijksmuseum, principal museu de Amsterdã, que recentemente emprestou um Vermeer ao Masp e guarda a principal pintura de Rembrandt, Ronda Noturna, será reaberto para convidados em 13 de abril, duas semanas antes da abdicação da rainha Beatrix. O último ato da monarca será, portanto, o de abrir as portas do maior museu nacional holandês, que volta modificado pelo escritório do arquiteto espanhol Cruz y Ortiz, auxiliado na tarefa pelo arquiteto de interiores francês Jean-Michel Wilmotte. Cruz y Ortiz ficou responsável pela reforma do atrium e a construção das novas galerias, inclusive uma para abrigar a coleção de arte asiática do museu, concluído em 1885.

O francês Wilmotte restaurou os interiores, pintando-os com cores fortes, algo esperado de um arquiteto que criou o discutido espaço sob a pirâmide do Louvre. O diretor do Rijksmuseum, Wim Pijbes, diz que não mudaria nada no projeto de restauração do museu, que assumiu em 2008, cinco anos depois que as obras começaram, provocando polêmica por sua longa duração. Compreensível. Trata-se do museu mais visitado em toda a Holanda: são mais de 2 milhões de visitantes todos os anos.

Pijbes foi diretor do Kunsthal Rotterdam por oito anos. Tem experiência como administrador e bom faro para atrair novos visitantes da Ásia, fascinados pela arte europeia antiga, especialmente do século 17, que o museu tem de sobra. Com um orçamento anual de € 40 milhões, o Rijksmuseum investe pesado na renovação do acervo. "Naturalmente não dá mais para comprar Vermeers no mercado, o que nos obriga a buscar a arte da Idade Média e de outros séculos, embora o museu tenha adquirido recentemente boas obras de modernos, como Mondrian", revela Pijbes, que, aos 52 anos, está disposto a concorrer com o Louvre em número de visitantes. "Veja, eram 1,4 milhão quando assumi a direção", diz, apostando que a nova disposição das obras da coleção vai ajudar o público a ter uma nova visão da arte europeia a partir da ordem cronológica do acervo.

Tudo mudou de lugar no Rijksmuseum, exceto a mais importante de suas pinturas. A Ronda Noturna de Rembrandt permanece onde sempre esteve, apenas alguns centímetros a mais acima do chão. A ideia é a de convidar o visitante a um percurso cronológico que avança a cada andar, dividindo cada um por períodos, com atenção especial para o século 17, que concentra as pinturas principais do museu. Seu acervo de obras-primas inclui A Leiteira, pintada entre 1658 e 1660 por Vermeer (1632-1675), telas de Crivelli e outros mestres. Além de Rembrandt, outros fazem parte da Galeria de Honra do Rijksmuseum, que conserva a arquitetura original de Pierre Cuypers (1827-1921). Para chegar aos mestres, no entanto, o visitante terá de driblar as centenas de bicicletas que vão entrar pelo atrium, coberto por um telhado de cristal (como o da Pinacoteca do Estado, em São Paulo).

O diretor do Rijksmuseum desaprova a entrada de bicicletas pelo atrium, mas foi vencido pelo lobby dos ciclistas holandeses, que têm uma associação forte. "Não posso responder por eventuais acidentes, mas consegui um acordo para bloquear o acesso aos ciclistas nos primeiros quatro primeiros meses após a inauguração do museu." No projeto original do neogótico museu (na verdade, um híbrido com toques renascentistas que parece o castelo de Harry Potter, segundo suas palavras), os ciclistas usavam um túnel subterrâneo e não disputavam espaço com os pedestres. "É uma estupidez essa pressão dos ciclistas, mas creio que a multidão de visitantes, no final, vai vencer", diz ele, comemorando antecipadamente o sucesso da reabertura.

Wim Pjibes esclarece que não assumiu a direção do museu para revogar as decisões da antiga administração. O projeto de organizar a coleção em ordem cronológica, por andar, era do antigo diretor, Ronald de Leeuw. "Não queremos com isso separar a coleção por departamentos, mas organizar o acervo misturando peças para que o visitante possa ter uma ideia do contexto em que foram produzidas." No passado, justifica Pjibes, arte e história viviam juntas, mas hoje, conclui o diretor, elas se divorciaram e é preciso fazer algo para recuperar esse casamento. "Atrair o visitante com cores dramáticas também ajuda nesse processo", acrescenta, anunciando que a parceria com o Masp vai continuar, na esperança de convencer brasileiros a visitar o Rijksmuseum. Em junho, o museu holandês empresta ao paulista parte de sua bela coleção de obras de M.C. Escher. Em contrapartida, tenta organizar uma exposição de Frans Post no museu holandês, contando com a ajuda de colecionadores brasileiros.

Não é sem uma ponta de inveja que o diretor do Rijksmuseum fala das telas que estão no Brasil, país que o pintor holandês retratou de maneira singular, observando tipos locais mas ambientando suas cenas com nostalgia da paisagem holandesa, ou seja, com dois terços do quadro ocupados pelo céu e um terço pela terra, como nos Países Baixos. Pergunto a Pjibes se a compra de Mondrian e outros modernistas holandeses não significa um pouco a tentativa de compensar a ausência de obras de artistas fundamentais do passado que foram parar nas mãos de colecionadores estrangeiros. "Todos sabem que o forte da coleção do Rijksmuseum é a arte produzida no século 17 e não pretendemos mudar essa orientação."

Com efeito, Pijbes, mais do que ninguém, sabe que os visitantes que entram em seu museu já se dirigem automaticamente às galerias onde estão abrigadas as obras dos velhos mestres como Frans Hals, Rembrandt e Vermeer (e não foi por acaso que o museu holandês emprestou sua bela pintura Mulher de Azul Lendo uma Carta, de 1672/5, ao Masp, espécie de chamariz para os futuros turistas brasileiros, que ainda são poucos no museu, segundo o diretor). Pjibes esteve sexta-feira na Tefaf, a Feira Europeia de Belas Artes, em Maastricht, pesquisando o que as galerias tinham para oferecer ao museu, mas a diretora do Mauritshuis chegou antes. Em todo caso, resta um Van Gogh à venda (a tela Jardin de Prebystère, pintada em 1885 pelo holandês). O diretor comprou recentemente 20 obras e garante que os investimentos no museu devem continuar, a despeito da crise europeia. Diz que os patrocinadores do Rijksmuseum mostram interesse em colaborar para o crescimento do acervo. Seria recomendável que o dinheiro saia rápido, pois todos os grandes museus presentes à Tefaf em Maastricht cobiçam a obra-prima Velho com Barba com Manta Marrom, de Jan Lievens (1607-1674), contemporâneo de Vermeer. Outra preciosidade disputada é um retrato de Velázquez que a galeria do marchand Otto Naumann colocou à venda, excitando os colecionadores.

Copiando o modelo francês, os principais museus holandeses passam ou passarão por reformas para atrair turistas. Ver obras de arte virou um programa para os asiáticos, como ir à Disneylândia. E Pjibes não pretende decepcioná-los. Lembra que também os museus americanos que passaram por reformas, como o de Arte Moderna de Nova York (MoMa) ou o Instituto de Arte de Chicago, buscam uma aproximação mais pessoal com os visitantes, o que o levou a adotar a venda de ingressos não por máquinas, mas por funcionários, orientados para atender turistas de todo o mundo. Ele alerta que não se trata de uma política populista essa de organizar visitas conforme os interesses d os visitantes, mas uma maneira de se adaptar aos novos tempos, que elegeram os museus para o que classifica de experiências visuais que combinam história, estética e arte aplicada. E essa experiência não ficará limitada ao interior do Rijksmuseum: nos novos jardins do museu serão realizadas exposições de esculturas, começando por uma do inglês Henry Moore. Poderia ser um holandês, mas Wim Pjibes é cosmopolita e, além disso, muitas doações chegam de patrocinadores estrangeiros. O Rijksmuseum, afinal, é patrimônio da humanidade. Não importa que Cuypers tenha projetado os jardins do museu como um local silencioso, de descanso. O diretor do renovado museu holandês quer ver agitação. Dentro e fora dele, mas só a partir de 18 de abril para o grande público.

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