Reprodução
Reprodução

Museu de Berna expõe 150 obras do escritor

Hesse começou a pintar aquarelas em 1917, incentivado por seu terapeuta

Antonio Golçalves Filho - O Estado de S. Paulo,

10 de agosto de 2012 | 20h00

Sob tratamento depois de uma crise nervosa provocada pelos bombardeios da 1.ª Guerra, Hermann Hesse foi encorajado a pintar por seu terapeuta J.B. Lang, um aluno de Jung. O escritor começou, em 1917, a fazer aquarelas, técnica que veio a dominar, embora se considerasse um diletante. O reconhecimento tardio desse talento inclui uma exposição no Museu de Arte de Berna que termina amanhã. O foco dessa mostra, que reúne 150 obras, é a atividade desenvolvida por Hesse em Berna - a ilustração dos próprios poemas, cartas e manuscritos. Ecológico, Hesse aproveitava cada pedaço de papel para exercitar sua arte. Prova disso são centenas de cartões natalinos de prisioneiros de guerra dos quais esteve encarregado. No verso desses, Hermann Hesse desenhou esboços de paisagens e estudos de perspectiva.

Talento para as artes parece ter sido uma característica na família do escritor. Sua irmã mais velha, Adele, foi aluna de Sofie Heck. Os três filhos de Hesse também se dedicaram às artes: Bruno virou pintor, Heiner dedicou-se às artes gráficas e Martin enveredou pela fotografia. A convivência de Hesse com grandes nomes do expressionismo certamente o marcou. Nas paisagens do escritor é perceptível a influência de August Macke (1887-1914). O pintor expressionista alemão morreu aos 27 anos, combatendo na 1.ª Guerra, mas teve tempo de conhecer Kandinski em Paris e compartilhar com o russo sua crença numa arte espiritual.

No cromatismo de Hesse, essa espiritualidade assume dimensão simbólica. Sua cor predileta, segundo o crítico R.J. Hum, era o vermelho, especialmente por estar ligado ao sangue e à paixão - também a espiritual, de Cristo -, a ponto de seu personagem Klingsor (protagonista de O Último Verão de Klingsor) ser um pintor expressionista cujo estilo Hesse define como "Todernder Flammenstil" ("flamejante", como o de Van Gogh). Aliás, a segunda cor na escala cromática do autor é o amarelo, também a mais usada pelo holandês, e indica não uma vítima da xantopsia, mas uma correspondência analógica com os cabelos loiros de suas personagens femininas (como os das mães de Demian e Goldmund, como observou o ensaísta Reso Karalashvilli).

A temática dominante nas aquarelas de Hesse é a natureza. Ele foi sobretudo um pintor de paisagens - raramente ocupadas pela figura de animais ou homens. Mesmo quando ela aparece, está amalgamada com a natureza em composições invariavelmente assimétricas, que perseguem, de acordo com a observação do crítico Christian Immmo Schneider, "um senso de harmonia, ordem e concentração". Isso não significa ignorar a natureza demoníaca que se esconde nessa paisagem. O próprio Schneider chama a atenção para a figura de um humanoide numa aquarela intitulada Baile de Máscaras (1926), que guarda certa semelhança com as figuras de Picasso. Hesse teria buscado na pintura não uma expressão alternativa para a literatura, mas, ao contrário, um complemento para entender a natureza.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.