Claire Bangser/AFP
Claire Bangser/AFP

Museu da Smithsonian coleta máscaras e objetos para exposição sobre pandemia

Mesmo antes de a máscara facial evoluir e se converter em um emblema definidor da batalha global contra o coronavírus, o Museu Nacional da História Americana vinha trabalhando em uma mostra sobre epidemias

Entrevista com

Alexandra Lord, historiadora de medicina

Guy Trebay, The New York Times

20 de maio de 2020 | 05h00

Bem no início da pandemia de coronavírus, quando a escassez de máscaras N95 para uso médico se transformou em uma espécie de busca do cálice sagrado, máscaras feitas em casa começaram a ser engenhosamente produzidas. De repente, as pessoas se viram improvisando uma proteção facial de qualidade inferior, usando tecidos, retalhos, bandanas, filtros de café e até absorventes.

Jornais publicaram guias ilustrados para fabricar uma máscara em casa. Escoteiros e bandeirantes criaram distintivos de honra ao mérito de fabricação de máscaras. Marcas de luxo multinacionais desviaram suas linhas de montagem para a manufatura de equipamento de proteção pessoal. A tradicional casa de moda masculina Savile Row entrou em ação como também o jovem botânico surfista no Havaí, David Shepard, cujos designs da flora nativa transformaram uma necessidade de saúde pública num panegírico a uma biosfera que hoje parece mais ameaçadora que gentil.

Mesmo antes de a máscara facial evoluir e se converter em um emblema definidor da batalha global contra o vírus, o Museu Nacional da História Americana, da Smithsonian, havia mobilizado uma força-tarefa para coletar artefatos relacionados a pandemias – roupas de proteção, folhetos sobre fechamento de loja – para capturar a história à medida que ela se desenrola.

A partir da sua casa, Alexandra Lord, historiadora de medicina e presidente da Divisão de Ciência e Medicina do museu, falou sobre as máscaras e seus múltiplos significados. 

  • Como este projeto foi criado e implementado tão rápido?

Em parte foi uma coincidência. Estávamos planejando uma exposição com o título Na Doença e na Saúde, para 2021 – um estudo sobre duas epidemias anteriores e uma pandemia –, e começamos a pensar muito sobre os objetos nas nossas coleções. Mas então, em dezembro, começamos a acompanhar notícias sobre o vírus. Sentindo o impacto e a importância histórica dessa pandemia e concentramos nossos esforços para reunir objetos a respeito da covid-19.

  • Somos propensos a pensar na pandemia em termos monolíticos, mas parece que há muitas narrativas que se entrelaçam.

Há múltiplos tipos de histórias. Começamos pensando sobre que tipos de objetos deveríamos reunir e que histórias relatar. Algumas comunidades têm sido mais impactadas do que outras: as comunidades afro-americanas vêm sendo especialmente afetadas, e também os asilos de idosos. Mas temos também os empregados de restaurantes, os desabrigados, as pessoas que trabalham no setor de alimentação, especialmente nos frigoríficos. Temos cinco divisões de curadoria e uma equipe de 163 pessoas. Mesmo assim, é uma história enorme para documentarmos.

  • Quais são os desafios enfrentados para coletar objetos durante o lockdown nos Estados Unidos?

Parte do problema é pensar como obter as coisas que necessitamos para contar esta história. Um respirador é um objeto icônico dessa pandemia, mas obviamente não queremos sair por aí em busca de um respirador, colocando mais estresse e tensão na cadeia logística. Estamos apreensivos em ir a um pronto-socorro e conversar com pessoas que têm no momento outras coisas para pensar. As máscaras em alguns lugares ainda são escassas. Assim, fomos ao Serviço de Saúde Pública e pedimos a eles para guardarem alguns tipos de objetos. Grande parte deles fala de pessoas que se apegam a coisas que, do contrário, poderiam jogar fora.

  • Uma máscara, por exemplo?

A máscara está entre os objetos importantes que estávamos reunindo. Uma das coisas que nos levam a pensar é que tipo de máscara deveríamos coletar. Máscaras diferentes contarão histórias diferentes. Existem máscaras para os profissionais médicos – a história deles é fundamental para a exposição. Existem vários modelos de máscaras feitas em casa. Há máscaras que poderiam ser feitas para uma criança usando um tecido com estampas da Patrulha Canina. Esse objeto em si – o tamanho, o padrão – vai dizer aos visitantes do futuro o que as pessoas estavam usando e como isso é sentido. Vai dar a eles um insight do papel dos pais tentando proteger seus filhos. Uma máscara que não seja bem feita vai lhe dizer algo sobre pessoas lutando para fazer o seu melhor.

  • Podemos dizer que as máscaras nos conectam com uma história médica mais ampla: a teoria microbiana das doenças, por exemplo, essa pandemia e epidemias do passado?

Já estávamos preparando essa exposição para 2021, de modo que começamos nosso planejamento bem antes da covid-19. Essa exposição deve iniciar com epidemias anteriores – a da febre amarela em 1793, na Filadélfia, uma epidemia de varíola em 1837, nas Grandes Planícies, e uma epidemia de cólera que atingiu a Califórnia na esteira da corrida do ouro no século 19. Quando estávamos planejando a mostra, nosso objetivo era dar aos visitantes uma compreensão dessas doenças que sempre se propagaram à medida que as pessoas migravam. Essas coisas aconteceram antes, embora não especialmente na escala vista hoje. Mas pandemias não são novas.

  • E as máscara também tiveram um papel em cada uma delas?

Nem sempre. As máscaras no passado não tinham o mesmo significado que possuem hoje. Muitas epidemias e pandemias anteriores surgiram antes da teoria microbiana das doenças. Existiam ideias diferentes sobre o que estava causando a doença. Alguns achavam que tinha a ver com contágio. Outros achavam que ela estava no ar. Entendiam que o ar estava poluído e assim colocavam lenços perfumados cobrindo a face.

  • E o que tudo isso vai dizer no futuro sobre o nosso tempo?

O que é importante é ver o quão personalizadas as diferentes máscaras são e quantas histórias elas podem narrar, desde o grupo que fabricou máscaras para pessoas nas comunidades até a máscara que foi improvisada porque você não conseguiu mais elástico.

  • Vocês incorporam humanidade nessa armadura de defesa?

A armadura assume muitas formas. Não significa sempre perguntar “Isso vai me proteger?”. Há um elemento de estilo como também é algo reconfortante. Nossas roupas eram mais estampadas no passado do que hoje, e agora, ao escolher uma bela estampa, estamos humanizando uma situação em que as pessoas não conseguem ver o nosso rosto.

  • Então, você está fazendo o melhor possível com algo que preferiria não usar?

Isso prova como as pessoas se tornaram adaptáveis e o quão rápido criamos essa armadura e a usamos de modo a ser uma peça de moda estilosa, que chama a atenção e, por isso, postamos fotos de nós mesmos com nossas máscaras no Instagram.

  • Significaria então uma máscara com um rosto sorridente?

Um elemento importante disso é colocar em contexto à longa história humana. Eu quero mostrar como colecionar objetos efêmeros pode ajudar as pessoas a entenderem como outras pessoas vivenciaram uma pandemia. Mesmo em períodos de grande sofrimento, nós buscamos e conseguimos encontrar momentos de frivolidade. É dessa maneira que nós, humanos, funcionamos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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