Museu apresenta pinturas dos irmãos João e Arthur Timótheo da Costa

Antes de Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, dupla de pintores negros mudou a arte brasileira

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

30 de novembro de 2012 | 00h00

Aberta no Dia da Consciência Negra, no Museu Afro Brasil, a exposição Os Dois Irmãos Pré-Modernistas Brasileiros é uma rara oportunidade de ver lado a lado as pinturas dos irmãos João e Arthur Timótheo da Costa, dois cariocas que empurraram o Brasil para a modernidade, o último morto justamente no ano em que São Paulo realizou sua Semana de Arte Moderna, em 1922. Artistas excepcionais, ambos viajaram pela Europa, aprenderam técnicas de cenografia e integraram, em 1911, a equipe selecionada pelo governo brasileiro para ornamentar o Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de Turim, Itália. Arthur (1882-1922), o mais novo, seguiria o mais velho, João (1879-1931) em seu trágico destino: os dois terminaram seus dias como internos do Hospício dos Alienados do Rio de Janeiro.

O simbolismo do pintor francês Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898), que foi aluno de Delacroix, marcou profundamente a obra de João Timótheo da Costa, autor de mais de 600 pinturas dos mais variados gêneros, destacando-se especialmente como retratista. Puvis de Chavannes, conhecido como muralista (é dele o mural que está no Hôtel de Ville, em Paris), exerceu igualmente forte influência em Arthur que, ao lado do irmão, trabalharia na decoração do salão nobre do Fluminense Futebol Clube em 1920, oito anos após o retorno dos irmãos ao Brasil. O mais novo, um paisagista sensível e inventivo, conservou o cromatismo de Puvis de Chavannes em muitas paisagens dos anos 1920.

A mostra revela esse entrecruzamento de correntes estéticas que iriam desembocar no modernismo dos anos 1920, época dominada até então pelo ecletismo. A desigualdade social e o racismo não impediram que os dois irmãos, nascidos numa família pobre e numerosa, fossem requisitados pela alta burguesia - especialmente para pintar retratos, como comprova a pintura de uma figura feminina (1909) de Arthur na exposição.

Mesmo tendo de aceitar encomendas das socialites, Arthur não deixou de pintar negros pobres, como mostram dois retratos da mostra, um deles feito em 1906, um ano antes de receber o prêmio de viagem ao exterior da Exposição Geral de Belas Artes, com o qual passaria dois anos entre Paris, Itália e Espanha. Neles, Arthur tenta romper com a linguagem acadêmica, mas sem o êxito de suas paisagens impressionistas posteriores. Seu retorno ao Brasil depois da bolsa europeia rendeu um trabalho que a historiadora Gilda de Mello e Souza considera como o antecipador da pintura moderna no Brasil, A Forja (1911) que, tanto no tratamento (o trabalho árduo na sociedade industrial) como na construção formal, revela forte influência dos pintores europeus.

As pinturas da fase final de Arthur dispensam o contorno para construir não com traços, mas com pinceladas monetianas. É o caso de uma das obras-primas expostas na mostra, Cais Pharoux (1918), pertencente à coleção de Max Perlingeiro.

Há poucas pinturas de João Timótheo na exposição, e isso se deve à dificuldade do empréstimo de obras pertencentes a colecionadores particulares. Ainda assim, a mostra inclui o retrato de um velho artesão limpando um vaso (de 1912) que evoca os melhores retratos de Cézanne e um nu feminino de 1929 de nítida inspiração pontilhista, uma adaptação da sintaxe de Seurat à sensualidade tropical. A afinidade de João com a pintura do irmão Arthur é incontestável, assim como com a paleta soturna de Puvis de Chavannes.

João Timótheo, a exemplo do venezuelano Reverón, estava no caminho de descobrir uma nova paleta quando a insanidade mental o encerrou num sanatório. Ele se dizia vítima da própria beleza tropical, pelo excesso de luz que prejudica a pintura. "A luz atenuada realça os planos, o excesso de luz confunde-os, tornando a pintura mais difícil", disse numa entrevista à revista Ilustração Brasileira. "O contraste é tudo. Na Europa pode-se pintar o próprio sol. Aqui isso não passa de um mito."

OS DOIS IRMÃOS: JOÃO E ARTHUR TIMÓTHEO

Museu AfroBrasil. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 10, Parque do Ibirapuera, 3320-8900.

3ª a dom., 10 h/ 18 h. Grátis.

Até 2/6.

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