Musa imperfeita e bela

Augustas é declaração de amor a uma das mais plurais ruas da cidade

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h09

Augusta. Talvez a mais imperfeita, e menos angelical, rua paulistana. Augustas, filme imperfeito, nada angelical, mas ainda assim carinhoso com a cidade que retrata. Primeiro longa de ficção de Francisco César Filho, o Chiquinho, tem sessão hoje no 7.º Festival de Cinema Latino de São Paulo.

É chance de ver um filme que foge à regra do 'cinema bonito para encher os olhos', do tipo que lota também as salas dos multiplex dos shoppings. É filme que se deve ver em sala de rua, que tem a imperfeição do cinema de outros apaixonados por São Paulo, como Luís Sérgio Person e Carlos Reichenbach. "Fico feliz com a lembrança do Carlão. Ainda que eu tenha a referência de outros grandes diretores que retrataram a cidade, é o cinema de Carlão que influenciou muito minha formação nos anos 80", comenta Chiquinho. E foi esta atmosfera feia de uma metrópole torta que o diretor fez questão de manter na fotografia de Augustas (assinada por Aloysio Raulino). "Fugimos de qualquer plano e ponto de vista que fosse só uma opção estética. Tudo o que está em quadro está em função da história", explica o diretor sobre a opção de filmar uma Rua Augusta (quase) nua e crua.

A história, a propósito, é a de Alex (Mario Bortolotto), um jornalista que acaba de ser demitido e tem pela frente o desafio de se adequar a um mundo em que outsiders como ele não cabem mais. Tem também de decifrar o enigma de Lilith, ou, de modo mais simplório, entender e aprender a conviver com as mulheres. Alex, não por acaso, mora na Augusta. É em torno da rua que sua vida se passa. É lá que ele almoça no bar da esquina, joga sinuca, faz compras, cai na esbórnia e conhece a prostituta Kátia. É com ela que, aliás, ele passa a ter visões após começar a frequentar o Templo do Chá. É a personificação de Lilith (ou Sish), a voz que passa a acompanhá-lo. Em vez de temer o feminino, ele passa a relações menos estereotipadas e mais espiritualizadas. Ponto para Lilith. Ponto para Augusta, onde todos estes tipos se cruzam e convivem em eterno caos calmo.

Não por acaso, o olhar atento de Chiquinho permeia toda a narrativa. Diretor premiado de documentários, retrata este universo sem preconceitos. "Foi sempre uma preocupação. Em A Estratégia de Lilith (livro de Alex Antunes no qual o filme é baseado) muitas vezes os personagens são cínicos e preconceituosos. Tivemos muito trabalho para tornar o roteiro mais carinhoso. Mais que as viagens de Alex, quis retratar a Augusta e quem vive nela."

Não por acaso, em determinada cena, alguém pergunta a Kátia por que ela passa a arranjar clientes pela internet. Responde: "Porque gosto é da rua." Chiquinho e seu cinema também. Vem da rua, de uma nada perfeita, e nada glamourizada realidade, a beleza de Augustas. E quiçá de São Paulo.

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