Julia Wesely/Divulgação
Julia Wesely/Divulgação

Musa Bipolar

A bela Julia Fischer é um caso raro no universo clássico. Assim como ganha prêmios e lota teatros como violinista, é impressionante quando decide assumir o piano

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

São raros os músicos polivalentes. Em geral, limitam-se a tocar mais de um instrumento da mesma família. O notável Pinchas Zuckerman, por exemplo, há pouco encantou o público paulista na Sala São Paulo. Pilota tão bem o violino quanto a viola - mas ambos pertencem à família das cordas, que inclui ainda o violoncelo e o contrabaixo. Todos tocados basicamente com arco.

O espanto acontece mesmo quando um músico é igualmente virtuose em instrumentos absolutamente diferentes. É o caso da jovem, bela e mundialmente conhecida alemã Julia Fischer. Aos 27 anos, e depois de ter construído uma carreira de reputação internacional como violinista, resolveu revelar publicamente um dos seus segredos de infância. Ela também toca piano - e muitíssimo bem. Num dos mais surpreendentes DVDs de 2010, Julia sola dois concertos: primeiro, empunha seu precioso violino, um Guadagnini de 1742, no terceiro concerto para violino e orquestra de Camille Saint-Saëns, ao lado da Filarmonia Jovem Alemã regida por Matthias Pintscher. Em seguida, retorna e assume o lugar do solista diante de um reluzente modelo D de concerto Steinway no célebre Concerto para Piano e Orquestra do compositor norueguês Edvard Grieg. O concerto foi realizado em 1º de janeiro de 2008 na Alte Oper de Frankfurt e só agora é comercialmente lançado.

 

 

 

 

Ouça somFantasia em Fá Menor para piano a 4 mãos, de Schubert

 

 

 

 

Violino e piano exigem habilidades manuais contrastantes. Enquanto no primeiro o foco está na afinação, produção do som e talento para encontrar a nota certa, no piano as notas já estão prontas. Mas, em compensação, o esforço físico é muito maior. As posições das mãos são muito mais diversificadas. Piano, é bom lembrar, é instrumento de percussão. Como conciliar tudo isso? Julia, nos 50 minutos de documentário, revela candidamente que jamais pensou nisso. "Comecei a estudar violino aos 3 anos e piano aos 4. Sempre alternei diariamente o estudo de um e outro, separados apenas por um intervalo para beber um copo d''água." O violino proporcionou-lhe o primeiro grande salto na carreira: o primeiro prêmio do Concurso Internacional Yehudi Menuhin, em 1995, aos 12 anos. Dali em diante o mundo reverenciou-a como violinista. E o piano era seu companheiro secreto preferido para "fazer música descompromissadamente, quando não estou estudando." A expressão "quando não estou estudando" remete à preparação dos concertos com orquestra, que andam na média anual de 80 a 90.

Você assiste ao DVD, esfrega os olhos e não acredita no que está ali, diante de seus olhos e ouvidos: Julia Fischer tem domínio completo sobre os dois instrumentos. No concerto de Saint-Saëns, obra com a qual venceu o concurso Menuhin, é a Julia Fischer já conhecida, de técnica fulgurante e leituras pessoais. No concerto de Grieg, faz um comovente Adagio, arrebenta no Quasi presto final e coloca a sua versão em pé de igualdade com as dos mais badalados pianistas de prestígio mundial.

Ela reclama, no documentário, que a posição do pianista em relação à orquestra lhe provoca um estranhamento que não costuma sentir quando empunha o violino ("não ouço bem a orquestra", diz). "Como violinista, tenho mais comunicação com a orquestra; afinal, tenho atrás de mim outros 20 colegas de arco e posso tocar os tutti sinfônicos com eles." Confessa que é "muito difícil tocar violino depois de tocar piano, porque este exige mais força física." Abusar do estudo simultâneo dos dois instrumentos, nem pensar. "Pode ser uma combinação fatal", alerta, avisando ainda que por causa desta teimosia "conheço todas as pomadas que existem para problemas musculares."

A frase mais interessante do documentário remete ao que este duplo talento lhe proporciona: "Quando toco piano, penso de modo mais melódico do que os pianistas, por causa da minha formação como violinista. E quando toco violino, penso mais polifonicamente do que a maioria dos violinistas." Em 2006, Julia tornou-se a mais jovem professora de violino numa instituição alemã. No caso, a Escola de Música de Frankfurt. Comanda, também, um festival de música de câmara - que considera o mais sublime dos gêneros.

SETE FAIXAS ESSENCIAIS

1- As Quatro Estações

com a Academy of St. Martin in the Fields; DVD nacional Movieplay, 2010

2- 24 Caprichos opus 1

de Niccolò Paganini; CD Decca,

3- Schubert: complete works for violin and piano vol. 2

CD Pentatone; única gravação de Julia em CD como pianista: ela toca na célebre Fantasia em fá menor - piano a 4 mãos.

4- Concertos para Violino de Bach com a Academy of St. Martin in the Fields; CD Decca,

5- Concertos para Violino no.s 3 e 4, de Mozart com a Orquestra de Câmara Holandesa, regência de Yakov Kreizberg; CD Pentatone, 2005.

6- Trios para piano e cordas no.s 1 e 2, de Mendelssohn com Daniel Müller-Schott e Jonathan Gilad; Pentatone, 2006.

7- Concerto Duplo de Brahms com Daniel Müller-Schott (violoncelo) e Filarmônica Holandesa de Amsterdã, regência de Yakov Kreizberg; CD Pentatone, 2007.

 

 

 

 

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