Mural revolucionário

Metropolitan recebe painéis pintados por Thomas Hart Benton nos anos 1930

Carol Vogel, The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2012 | 02h03

No dia 1º de janeiro de 1931, foi inaugurado em Nova York um edifício totalmente diferente entre as residências urbanas típicas da classe alta da Rua 12 West: o da International Style New School for Social Research, de Joseph Urban, no qual uma sala, particularmente, constituía a principal atração. O pintor realista americano Thomas Hart Benton instalara no salão de reuniões do segundo andar do prédio nove painéis de um mural que teria dez, formando uma obra intitulada America Today, uma ampla coleção de tipos americanos da época anterior à Depressão, das melindrosas aos pequenos fazendeiros, dos trabalhadores da construção civil aos magnatas das finanças. Lloyd Goordrich, destacado historiador da arte, a definiu como uma obra revolucionária, que prenunciava uma nova visão da pintura mural: "Tomar a realidade para, então, criar uma arte mural".

Oitenta anos mais tarde, America Today, agora considerada um dos exemplos mais importantes do cenário da pintura americana, está escondida num depósito. Mas tudo deverá mudar em breve, porque a companhia de seguros AXA Equitable, que a adquiriu há 30 anos, decidiu doá-la ao Metropolitan Museum of Art.

"O Met é realmente o lugar perfeito para ela", disse Mark Pearson, "chairman" e diretor executivo da AXA, num entrevista por telefone. De todas as instituições analisadas pela companhia, "o Met tem as dimensões apropriadas para a obra e o maior número de visitantes".

 

Thomas P. Campbell, diretor do Met, considera a doação "um benefício enorme tanto para Nova York quanto para os amantes da arte do mundo todo", e lembrou de mais uma razão para que a obra passe a fazer parte do acervo do museu: "America Today é um mural digno de uma sala destinada a ilustrar uma época", ele disse, "e o Met é um museu composto de salões deste gênero".

O único problema é que o museu tem pouco espaço - assim, a primeira exposição pública do mural, depois de transferido para a nova casa, deverá ocorrer provavelmente em 2015, quando o Met anexará o edifício histórico Marcel Breuer, do Whitney Museum of American Art, na Madison Avenue. Segundo os diretores do Met, America Today será exposto como a primeira obra de arte a ocupar este espaço satélite provisório, do qual o museu poderá dispor por pelo menos oito anos.

Sheena Wagstaff, nova presidente de arte moderna e contemporânea do Met, disse que ainda não foi determinado o salão que receberá o mural. "America Today é mais que apenas uma visão da vida americana", observou. "Ela condensa a tensão entre a tradição europeia e uma nova linguagem estilística americana e é uma demonstração de diferentes questões sociais que vão muito além da América do Norte."

Como neste momento o mural se encontra no depósito, o Met mostra, em um link especial no seu site, como deverá ficar em um salão, com imagens dos vários painéis.

Benton, que morreu em 1975, dizia que a inspiração para a obra surgiu nas viagens que realizou por todo o país nos anos 20, durante as quais desenhava o que via. "Eu me limitava a percorrer os lugares, a desenhar e a conversar com as pessoas", relatou em uma entrevista, em 1968. "Naquela época, era fácil conversar com as pessoas. Agora, não encontro mais o mesmo contato, e não acho que seja apenas pelo fato de eu ter envelhecido. Acho que os jovens também sentem isto, e é por este motivo que existe tanta rebelião."

Perguntado se America Today tinha um caráter político, ele foi enfático: "Não, o mural não teve absolutamente a finalidade de ser uma obra de protesto social, apenas um relato da vida americana antes da Depressão".

Os dez painéis - a maioria com cerca de 2,30 metros de altura e de largura variável - retratam uma visão panorâmica da vida urbana e rural às vésperas da Grande Depressão. Captam a prosperidade e a pobreza daqueles anos. São imagens do poderio industrial como cenas de um trem que avança envolto no vapor da fumaça e da água que jorra de uma barragem. Há também mineiros de carvão e dançarinas do teatro de variedades, lutadores, passageiros do metrô e até um casal de namorados num banco de jardim.

Benton não recebeu pagamento pelo trabalho. "Fiz de graça, somente o dinheiro dos custos", falou. "Mas me permitiu realizar mais oito murais, que foram muito bem pagos, então foi muito bom para mim". Seu sucesso deu impulso aos programas de murais Works Progress Administration, no final da década de 30.

Ao longo dos anos, o espaço em cujas paredes estava exposto foi transformado de sala de reuniões para reservado para aulas e, depois, para seminários; multidões, fumaça e clima instável foram determinantes para sua deterioração. Benton restaurou a obra duas vezes: em 1956, e novamente 12 anos mais tarde.

Em 1982, a escola, que precisava arrecadar dinheiro, conhecendo o valor da obra, decidiu vendê-la. Edward I. Koch, então prefeito de Nova York esforçou-se para preservar America Today em Nova York e para que pudesse ser apreciada pelo público. Ao adquiri-la (pelo preço astronômico na época de US$ 3,1 milhão) dois anos mais tarde, a AXA comprometeu-se a preservá-la.

Durante dez anos, o mural dominou o saguão da sede da companhia no número 787 da Sétima Avenida e, quando a AXA se mudou, em 1996, os painéis foram transferidos com ela, passando a adornar o saguão do número 1290 na Avenue of the Americas. Em fevereiro, quando o Vornado Reality Trust, proprietário do prédio, decidiu reformar o imóvel, o mural foi guardado no depósito.

"Na realidade, o saguão do edifício não nos pertence, e a incorporadora quer dar ao local um aspecto diferente", disse Pearson. "É uma obra tão representativa que precisa de um espaço para receber todos os cuidados necessários, ambiente climatizado, e ser vista por um número maior de apreciadores". Campbell espera ansiosamente o momento em que o mural voltará a ser admirado pelo público. "Quando anexarmos o edifício Breuer", ele disse, "America Today será uma instalação fora de série". (Tradução Anna Capovilla)

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