Muppets renovados

A Disney põe os bonecos na era digital, mantendo o mesmo humor irreverente

Michael Cieply e Brooks Barnes, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

Caco, o Sapo, empoleirado num toco de árvore dentro num estúdio de som há algumas semanas, derramava charme. Nada daqueles apartes provocadores impertinentes, das negações irritadas ante as investidas amorosas de Miss Piggy.

A criatura verde estava apenas tocando seu banjo sob uma tempestade criada digitalmente, cantando as palavras de sua sonhadora canção típica, "someday we"ll find it, the rainbow connection", como se sua carreira dependesse disso. E pode depender. Talvez seja exagero dizer que os Muppets - aquelas marionetes anarquistas, piradas, espirituosas do humor de meados dos anos 1970 - estão se preparando para sua maior investida na glória do show business.

A Disney, que é dona dos Muppets desde 2004, está dando nova chance a Caco, Miss Piggy, Urso Fozzie, Gonzo, Dr. Teeth, o Cozinheiro Sueco, Jairo e aqueles petulantes do balcão, Statler e Waldorf. Programado para ser lançado no Dia de Ação de Graças (em novembro, nos Estados Unidos), The Muppets quer relançar a marca repetindo atributos característicos da turma: humor irreverente, mordaz até; números de canto e dança cativantes; e um enredo caótico, que pode ricochetear de galinhas dançantes a comediantes stand-up e porcos no espaço. "É preciso traçar uma separação cuidadosa entre respeitoso e reverente", disse Leslie Stern, um figurão da Disney encarregado da supervisão do rejuvenescimento das personagens dos Muppets. "Fazer parecer contemporâneo, mas preservando o que tornou essas personagens tão cativantes e queridas antes de tudo."

Para isso, a Disney reuniu uma equipe criativa incomum, conhecida pelo humor atrevido e tresloucado. Nick Stoller e Jason Segel, cuja experiência vem, em grande parte, de comédias classe R (para menores de 17 anos somente acompanhados pelos pais), escreveram o roteiro. O diretor é James Bobin, estreante no cinema, mas cujos créditos em textos e direção na TV incluem a série da HBO Flight of the Conchords.

Orçado em cerca de US$ 50 milhões, o filme segue um casal de cidade pequena (Amy Adams e Segel), que leva um jovem Muppet chamado Walter - uma criação nova - a Los Angeles. Eles estão à procura dos famosos Estúdios Muppet, em grande parte porque Walter, usuário contumaz de iPhone, não resolveu muito bem sua identidade. Após localizar o estúdio, eles descobrem que o lugar está "dilapidado e quase abandonado". Mas Caco e companhia decidem consertar tudo com a reunião da turma para um espetáculo de variedades à moda antiga, dispostos a levantar fundos e salvar o estúdio de um vilão chamado Tex Richman, interpretado por Chris Cooper. Este acha que pode farejar petróleo sob o famoso Muppet Theater.

A filmagem de um grande número musical fechou o Hollywood Boulevard por dois dias. O filme envolve pelo menos cem personagens dos Muppets e o máximo de "pontas" famosos que Stoller e Segel conseguiram encaixar no roteiro. Num surto de boa vontade, alguns dos jovens astros mais brilhantes de Hollywood cerraram fileiras para reviver os Muppets com um filme que é, apropriadamente, sobre reviver os Muppets. Nos últimos meses, Ricky Gervais, Emily Blunt, Zach Galifianakis, Jack Black e duas dezenas de pares acorreram para palcos alugados nas dependências dos Estúdios Universal para fazer papéis. Numa única cena, Whoopi Goldberg, James Carville, Neil Patrick Harris, Judd Hirsch e Selena Gomez fazem pontas, segundo os produtores.

"Esta é a primeira produção Muppet que está sendo liderada por fãs e não por profissionais experientes nos Muppets", disse Lisa Henson, filha de Jim Henson e presidente-executiva da Henson Co. Seu pai, que morreu em 1990, trabalhou muitas vezes com astros de menor grandeza. Para acompanhamento humano, suas criações tiveram de se contentar com caretas de Ruth Buzzi ou Charles Aznavour sussurrando em francês o número telefônico de um depósito de lixo em Paris para uma embevecida Miss Piggy.

Mas os números musicais, gags visuais e momentos muito inesperados - que tal Rita Moreno e um Muppet dançarino se espancando mutuamente em torno do palco? - entraram no imaginário de uma geração. Para Stoller, os Muppets são, ao lado de Woody Allen, Saturday Night Live e Os Simpsons, pilares do estilo cômico contemporâneo. "Os Muppets são a droga de iniciação para escritores de comédia", disse Stoller, que está na faixa dos 30 anos e se lembra de ter se viciado com pouca idade nas brincadeiras alopradas, na vocação de vaudeville e nos velhotes perversos que, de um poleiro no balcão, eram os interlocutores do show.

A popularidade do vídeo Bohemian Rhapsody, do Queen, visto quase 20 milhões de vezes no YouTube desde o fim de 2009, levou a Disney a acreditar que os Muppets - meio marionetes, meio bonecos - não haviam perdido relevância numa era de animação computadorizada. David Hoberman, que também produziu O Lutador, admite que The Muppets foi feito para criar novos fãs e trazer de volta os antigos. "Estamos conscientes da responsabilidade aqui", disse ele. "Estamos tentando atrair todos, jovens e velhos." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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