Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Municipal terá escola dedicada à ópera

Plano faz parte da estratégia da nova diretoria de formação do teatro

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

29 de abril de 2014 | 03h00

O Teatro Municipal de São Paulo terá uma escola de ópera. O projeto estará ligado à diretoria de formação da Fundação Teatro Municipal, ocupada desde a semana passada pelo professor e compositor Leonardo Martinelli. A ideia, segundo ele, é dialogar com a vocação de produtor lírico do teatro, dentro do contexto da integração entre os diversos setores da instituição.

"Não há, hoje, na escola municipal de música, cursos específicos na área de ópera", diz Martinelli. "Professores e alunos que se interessam pelo tema não têm a estrutura própria para isso e é nesse sentido que pretendemos trabalhar. O objetivo é criar um formato de ópera estúdio, com cursos de idioma, de atuação, de correpetição, de regência de ópera e, num segundo momento, trabalhar também com a formação técnica de cenógrafos, por exemplo." O objetivo seria, ao final de cada ano, produzir um espetáculo dentro de escola, que poderá ser apresentado também em teatros de bairro e em CEUs, em diálogo com um projeto de formação de plateias.

Ligados à diretoria de formação estão as escolas de música e de bailado, o Coral Paulistano, dirigido desde janeiro por Martinho Lutero, e a Orquestra Experimental de Repertório, comandada desde fevereiro pelo maestro Carlos Moreno. Também será criado um núcleo dedicado à música contemporânea. Segundo Martinelli, os grupos mantêm a individualidade e seus projetos artísticos independentes, sugeridos por seus diretores, mas será o papel da diretoria de formação articular o diálogo entre eles.

No programa de trabalho apresentado pelo novo diretor, está previsto o estabelecimento de alguns eixos, como uma maior ligação entre a escola de música, a sinfônica jovem e a Orquestra Experimental de Repertório. "Na proposta trazida pelo maestro John Neschling quando assumiu a direção artística, o intercâmbio artístico e pedagógico é fundamental. E a diretoria de formação vai trabalhar nesse sentido, aprofundando a relação das escolas com as orquestras, por exemplo."

Em outras palavras, o Municipal pretende assumir uma vocação dupla – a difusão de espetáculos, mas também a formação. "O que pretendemos fazer é integrar esses dois objetivos, incluindo nessa conta outro aspecto muito importante, que é o de formação de plateias. É preciso acabar com a ideia de que formar plateias é dar ingresso de graça. Temos que dar também informação, envolver o jovem no mundo da ópera, contextualizar aquilo que é visto no palco. O que queremos fazer é levar a ópera para as escolas, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação, preparando material didático adequado e capacitando os professores para que a experiência com a ópera não se limite a um espetáculo. Nesse contexto, a itinerância é importante também porque amplia o público, que não precisa se limitar aos 1.500 lugares do teatro."

Relação. Martinelli, que atuava como professor de história da música na escola municipal, também fala na maior relação entre o que acontece na programação do teatro e as atividades das escolas. "Já está em estudo a realização de um seminário de regência do maestro Neschling na escola. E devo dizer que, em todo o meu tempo como professor da instituição, é a primeira vez que vejo interesse da parte da direção artística do teatro em atuar de maneira mais presente na escola. Da mesma forma, artistas convidados, sejam cantores, maestros e solistas instrumentais, também poderão aproveitar a vinda a São Paulo para se apresentar no teatro para dar master classes para os alunos."

Nesse sentido, as atividades vão além dos grupos ligados diretamente à diretoria de formação: na quarta, por exemplo, o Coral Lírico Municipal, dirigido por Bruno Faccio, fará, das 16 h às 19h30, na sala do Conservatório na Praça das Artes, um ensaio aberto de Carmen, de Bizet, que será interpretada em maio, para alunos de música da escola e outras instituições.

No escopo da direção de formação, também está prevista a realização de cursos livres nas escolas do teatro, abertos ao público em geral. "História da ópera, história da música, apreciação musical: são temas que estarão abertos ao público em geral. Se olhamos o resultado das palestras que o crítico musical e professor Irineu Franco Perpetuo tem feito sobre as óperas encenadas no teatro, fica claro que há uma demanda para esse tipo de iniciativa."

Maestros falam em integração e em foco na área pedagógica

Dois meses depois de assumir a Orquestra Experimental de Repertório, o maestro Carlos Moreno diz acreditar que a tônica de seu trabalho com o grupo passará pelas possibilidades abertas pela percepção de que se trata de uma "orquestra escola". "Isso é muito importante. A Experimental pode ser não apenas o celeiro de músicos vindos da escola do Municipal, mas também um elo de ligação do teatro com outras escolas e o meio acadêmico", diz.

Do ponto de vista de repertório, ele investe este ano nos ciclos das sinfonias de Brahms e Beethoven – e inicia o trabalho de interpretação da integral das Bachianas Brasileiras, de Villa-Lobos. A orquestra também fará a estreia de quatro obras encomendadas a compositores brasileiros. "Estamos preparando artistas para o mercado. E um músico de orquestra precisa chegar ao universo profissional conhecendo essas obras. A primeira vez de um violinista na Quinta de Beethoven não pode ser quando ele for fazer um cachê com a Osesp."

O Coral Paulistano Mário de Andrade, por sua vez, atua com uma função dupla. "Há dois objetivos fundamentais, colocados pelo conselho da fundação de modo muito claro: de um lado a difusão da música brasileira e, de outro, a difusão da atividade coral", diz o maestro Martinho Lutero. Ele cita como exemplo o programa do primeiro concerto do ano do coral. "Fizemos o Réquiem do Fauré e a Missa Breve do Aylton Escobar, ou seja, uma grande obra do repertório coral e uma importante peça de um autor brasileiro. Essa será a tônica da nossa atividade." O coral também fará concertos nos CEUs. "Não se trata apenas de ir cantar lá. No CEU Butantã, por exemplo, há um coral infantil e um coral adulto. Então, no mês que antecedeu o nosso concerto lá, cantores do Paulistano foram ao espaço, trabalharam com eles, deram cursos, cantaram, fazendo do concerto o ponto de chegada de uma ideia mais ampla."

Bruno Faccio, do Coral Lírico Municipal, também se diz animado com a possibilidade de colaborar com a diretoria de formação. "A ideia de abrir o ensaio para alunos de música oferece um olhar diferente sobre o trabalho do coro e pode ajudar a formar estudantes que, no futuro, vão se juntar a essa grande trajetória do grupo", diz.

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