Mundo vigiado

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, completa 60 anos, cada vez mais atual

BRENO PIRES, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h13

Uma sociedade viciada em entretenimento televisivo, calmantes e antidepressivos, que admite a supressão da liberdade individual em nome de uma suposta felicidade, garantida pelo estado por meio da repressão ao contraditório. Essa é a imagem que o escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012) projetou, em 1953, para o futuro, na sua obra prima, Fahrenheit 451,lançada em outubro daquele ano. Mas bem que poderia ser uma leitura da sociedade norte-americana pós-11 de Setembro.

Sessenta anos após a sua publicação original pela editora Ballantine Books, o livro que atraiu a atenção do mundo à literatura de ficção científica não só segue influenciando artistas como parece cada vez mais atual.

"Praticamente tudo que Bradbury diz em F 451 descreve o mundo de hoje, o mundo televisivo, conectado, interativo, onde as pessoas ficam como sonâmbulos respondendo a estímulos, acompanhando séries, novelas ou reality shows. O livro fica mais contemporâneo a cada década que passa", afirma o escritor Braulio Tavares, pesquisador de literatura de ficção científica, que organizou a primeira bibliografia do gênero no Brasil, em 1992.

Em Fahrenheit 451, título alusivo à temperatura em que os livros queimam, os bombeiros combatem incêndios que não vêm do fogo; vêm das ideias. O bombeiro Guy Montag, influenciado pela adolescente Clarisse, descobre que existe um mundo por trás dos livros que queima diariamente. Montag deixa de se reconhecer na rotina do cidadão comum - representada por sua esposa, Mildred, que vive em função de programas televisivos estilo Big Brother. Ele passa a devorar livros e busca agir contra a ordem.

O discurso dominante e a figura do estado são representados por Beatty, chefe de Montag. Ele argumenta que a leitura é nociva e deve ser combatida. Quem lê pode espalhar o terror - a constatação de que as coisas não estão tão boas assim.

A interferência do estado na liberdade individual e no direito à privacidade por questão de segurança poderia ser associada à política de espionagem de civis antiterrorismo dos Estados Unidos. "Você não pode ter 100% de segurança e também ter 100% de privacidade e inconveniência zero", disse o presidente Barack Obama, semana passada, sobre o programa secreto de monitoramento de cidadãos feito pela Agência de Segurança Nacional, com participação de empresas como Facebook, Google, Apple, Yahoo e Microsoft - discurso que orgulharia Beatty em Fahrenheit 451. Já Montag, em 2013, poderia ser comparado a um dos "Anonymous", segundo Braulio Tavares.

Fahrenheit 451 se encaixa na linha das distopias, que, ao contrário das utopias, imaginam sociedades oprimidas por estados que restringem a liberdade. Pode ser associado, nesta categoria, a 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Na ficção de Bradbury, existe a particularidade de que as pessoas se sentem bem, sem a sensação de submissão. As pessoas veem no livro uma fonte de dúvida, dor e inconformidade e abrem mão dele para não sofrer. "Em obras anteriores de distopia, como 1984, os indivíduos eram subjugados pelo estado, que controlava tudo. Bradbury veio dizer que o desejo da felicidade pode ser distópico nesse sentido. O estado se apresenta como alguém que vai garantir a felicidade. Não é só queimar os livros, também as drogas de humor", diz o escritor e pesquisador de ficção científica Roberto Causo, que vê semelhança com o presente. "Se a pessoa está deprimida, toma um negócio; se alegra demais, toma outro. Isso é muito visível hoje principalmente nos Estados Unidos, que parecem querer customizar a vida."

Bradbury apostava no emburrecimento pela falta de informação. Algo que não faz muito sentido hoje em dia. Há infinitas vezes mais informação disponível no mundo do que Bradbury jamais poderia imaginar, décadas antes do surgimento da internet. No entanto, excesso de informação também distrai. "No livro, ele se preocupa com preservação de discursos. Hoje a proliferação é tão grande, que fica difícil verificar o que é relevante na sociedade", diz Causo.

A imagem de bombeiros queimando livros em vez de apagar incêndios ainda parece surreal, mas existe pressão "politicamente correta" para o banimento de certos títulos e autores de currículos escolares e bibliotecas, afirma Braulio Tavares. Harry Potter foi proibido em escolas religiosas de vários países e um suposto racismo ameaçou algumas obras de Monteiro Lobato no Brasil. "O perigo não é que queimem os livros, é que os livros que discutem ideias sejam substituídos, como a indústria editorial tende a fazer cada vez mais, por factoides inofensivos: livros de culinária, de turismo, de autoajuda, de biografias de pseudo celebridades etc", diz o escritor.

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