Mundo saturado pelas imagens

Um Porco Sentado une crueza das fotos de John Deakin e deformação das obras de Bacon para discutir a vida hoje

, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

   Imagem. A proposta anunciada é criar uma dança-instalação que forme um tríptico com a crueza das fotos do inglês John Deakin. Foto: Gal Oppido/Divulgação

 

 

Uma fabricação de imagens muito bem acabadas, que se sucedem tão rapidamente, a ponto de se transformarem em um polpudo cardápio de ofertas. São lindas, mas são tantas que não há tempo para se adentrar nas suas camadas, para degustar as suas texturas. Será que Um Porco Sentado, a segunda produção de dança que compõe o 14.º Cultura Inglesa Festival, e que marca a estreia de Roberto Alencar na concepção e na direção, quer conversar conosco sobre a hipertrofia de imagens que vem caracterizando o mundo no qual vivemos?

Percebe-se nas imagens produzidas uma característica especial: elas são montadas com a lógica da bidimensionalidade, embora ocupem um espaço tridimensional. Assim, vão dando forma a um ambiente pronto, no qual os corpos são somente inseridos, tal qual cada um dos objetos que dele também participam. Além disso, o entendimento do que seja cena vem do teatro, porque trabalha cada uma das situações que exibe como se fosse uma unidade estruturante da narrativa.

A proposta anunciada é a de criar uma dança-instalação que formasse um tríptico com a crueza das fotos do inglês John Deakin (1912-1972) e a deformação que reconduz ao real da pintura do irlandês Francis Bacon (1909-1992). Para seguir nessa direção, necessitava de uma metodologia de trabalho capaz de lidar simultaneamente com essas distintas linguagens artísticas. E como ambas se dedicam a investigar o tal do "real", talvez venha daí, desse entendimento de real como "a coisa nela mesma", capaz de ser comunicada de uma maneira direta, a principal questão em torno desta criação.

O desejo de realizar uma mestiçagem das linguagens artísticas não ocorre, mas combina com a trajetória profissional de Roberto Alencar, que reúne experiências em dança e em teatro. Felizmente, o material que apresenta não traz os vocabulários delas, revelando que aquela competência que já o consagrou como um intérprete refinado começa a alimentar as suas novas habilidades como diretor de uma obra que também concebeu.

A questão central está no desequilíbrio ainda presente, que faz a dança funcionar como um adereço a mais, nos quadros já superlotados de objetos diversos. Roberto Alencar está em cena, acompanhado por Renata Aspesi, e a bem realizada movimentação desses dois excelentes intérpretes, infelizmente, não tem potência para evitar o tratamento da dança como legenda dessa comunicação muito física que Deakin e Bacon perseguiam.

As duas primeiras cenas têm alto impacto. Nelas, a combinação entre o tipo de movimentação e os outros objetos se dá de modo a que tudo junto, sem hierarquias prontas, faça nascer uma espacialidade específica para cada uma delas. Todavia, não irradiam esse tipo de estruturação para as que se seguem. Nelas, a decoração silencia a arquitetura. Como se trata de mais uma das muitas estreias que chegam ao público sem terem tido tempo suficiente para sua maturação - traço que vem se tornando cada vez mais comum na produção contemporânea - possivelmente este Um Porco Sentado ainda reajustará o que lhe falta para se tornar, de fato, uma dança-instalação.

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