Andre Lessa/AE
Andre Lessa/AE

Mundo maravilhoso dos números

Alex Bellos usa objetos do dia a dia para tornar fascinante a ciência do cálculo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2011 | 00h00

Numericamente, Alex Bellos é quase uma exceção entre jornalistas - ex-correspondente do jornal The Guardian no Rio de Janeiro, o inglês é fanático por matemática. Na verdade, diplomou-se na disciplina na Inglaterra, carreira que não seguiu por se aventurar no mundo das notícias. "Em 2003, quando terminou minha estadia no Rio, voltei para a Inglaterra sem nenhum projeto até que fui convidado por uma editora para escrever um livro que apresentasse a matemática a adolescentes", conta Bellos.

A proposta, na verdade, não o empolgou, pois ele estava disposto a apresentar a face prática dessa ciência, ou seja, como a matemática está presente tanto na chance de se acertar o número ganhador da roleta como a probabilidade de acertar o cubo mágico em menos de vinte movimentos. Bellos passou um ano viajando e outro ano escrevendo até concluir Alex no País dos Números, lançado agora pela Companhia das Letras.

O livro tem capítulos independentes e pode ser lido aleatoriamente. Mas, seguir a ordem estabelecida permite uma bela viagem. Bellos conta que percebeu a importância da matemática na vida cotidiana durante o período em que viveu no Brasil. "Aqui, as pessoas usam calculadoras para dividir a conta do restaurante, algo raro na Inglaterra onde quase ninguém se interessa por números no dia a dia."

O período de viagens foi intenso. "Voltei a ser um correspondente estrangeiro, dessa vez, no mundo dos números", brinca Bellos, que rumou a Paris para conversar com o linguista Pierre Pica, que havia voltado da Amazônia. Lá, ele faz pesquisas com os índios mundurucus, tribo que, apesar do raciocínio quantitativo apurado, conta até cinco - acima disso, qualquer quantidade é identificada apenas como "muitos". "O curioso é que essa falta de necessidade de contar (eles não se preocupam também com o passar das horas ou dos dias) acabou influenciando Pica, que não sabia precisar o tempo em que passou com os índios", conta Bellos.

Talvez o momento mais curioso tenha acontecido no Japão. Lá, o matemático jornalista conheceu crianças que aprendem o uso do ábaco, espécie de calculadora feita de madeira e contas. Operações complicadíssimas, como a multiplicação de 367 por 827 são feitas em segundos. E o som das contas se movendo na madeira, algo semelhante ao das antigas máquinas de escrever, soava como música, relembra Bellos.

Mas a habilidade mental daqueles jovens vai além: depois de aprender a manusear o ábaco, eles são desafiados a fazer contas sem o uso físico do aparelho, apenas imaginando-o. "Os adolescentes ficam diante de um monitor, que projeta uma rápida sequência de números", conta Bellos. "Imediatamente, o professor pergunta o resultado e todos, em coro, dão a resposta exata."

Ainda no Japão, Alex Bellos descobriu outro exemplo perfeito de habilidade mental, dessa vez entre macacos. Testado em um laboratório, um chimpanzé desenvolveu uma incrível rapidez em decorar determinadas sequências de números apresentadas em uma tela. A cada etapa vencida, a nova sequência era exibida com menos tempo que a anterior. O resultado foi surpreendente. "O macaco conseguia identificar os números a uma velocidade superior à da capacidade humana, ou seja, em um determinado momento, enquanto eu nem tinha a chance de identificar todo os números, ele já tinha decorado."

Ao contrário da habitual convicção de que a exatidão exigida pela matemática a transforma em uma ciência fria, sem sentimentos, Bellos mostra como a filosofia se associa com facilidade a esse ramo científico. O surgimento do zero, por exemplo, obra dos hindus. "A crença religiosa aliada à abstração de quantificar o que não existe permitiu essa importante criação, pois, a partir do zero, foi possível identificar também os números negativos", relata.

Bellos mostra ainda como o Sudoku foi criado por um inglês mas só se tornou mania mundial depois de aprimorado e rebatizado por um japonês. Nos Estados Unidos, ele conversou com o diretor de projetos da empresa criadora de caça-níqueis sobre como a probabilidade o acaso podem tornar uma pessoa milionária.

Alex no País dos Números vendeu mais de 40 mil cópias na Inglaterra e já foi traduzido para diversas línguas. Empolgado, o autor prepara-se para nova empreitada, talvez mais árida: um livro sobre trigonometria.

ALEX NO PAÍS DOS NÚMEROS

Autor: Alex Bellos

Tradução: Claudio Carina e Berilo Vargas

Editora: Companhia das Letras

(496 páginas, R$ 44)

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