Mundo fashion alinhado com o meio ambiente

Em Nova York, mostra Going Green prova que existe um figurino verde que não sacrifica o estilo nem a ecologia

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Com centenas de coleções despejando novas tendências para o ano que vem, os fashionistas são chamados a pensar no que é que suas botas ou seus jeans têm a ver com o futuro do planeta na exposição Eco-Fashion - Going Green, que o Fashion Institute of Technology (FIT), em Nova York, exibe até 13 de novembro. Ela lembra um aspecto da moda invisível nas passarelas e vitrines: o impacto do seu ciclo de produção no meio ambiente.

Eco-Fashion intercala métodos contemporâneos de moda verde (definida como ética) com práticas usadas desde o século 18. Do item mais antigo em exibição, um longo de brocado feito por volta de 1760, a exemplares de coleções deste ano, são cerca de cem peças de vestuário, acessórios e tecidos escolhidas pela curadoria para tocar em temas como extinção de animais, processos de fabricação e reaproveitamento de tecidos, questões trabalhistas e de saúde relacionadas à moda.

Antes uma mercadoria reverenciada, hoje a roupa é, muitas vezes, tida como descartável. Calcula-se que 4 bilhões de pessoas, a parte dos 6,8 bilhões de habitantes do planeta que pode gastar dinheiro em moda, consumam 250 bilhões de peças/ano. Um volume impossível de ser sustentado se a fast-fashion continuar prevalecendo sobre qualidade, manufatura e durabilidade. Uma das maneiras mais responsáveis de fazer moda ecológica é a reutilização de tecidos.

No caso de um vestido de seda do acervo do FIT e criado por volta de 1840, seu valor está na seda tecida à mão. Para um terno criado em 1960 pela Cifonelli, famosa alfaiataria europeia, usou-se o avesso de um xale com estampa de caxemira. A transformação de echarpes, suéteres e meias em jaquetas ou vestidos do belga Martin Margiela e do malinês Lamine Kouyaté são exemplos mais recentes do que os franceses chamam de "recup" e os anglófonos definem como "upcycle".

Fibras naturais, principalmente o algodão, são cultivadas com enorme quantidade de químicas - uma das primeiras razões para que a necessidade de mudanças começasse a ser reconhecida nos anos 60. O look "natural" dos hippies era associado a ambientalismo e vários elementos do guarda-roupa paz e amor, como tons terrestres, fibras de cânhamo e patchwork, são protótipos da eco-fashion de hoje.

Mas foi-se o tempo que o figurino verde era na base de túnicas e batas largas de pano cru. É possível produzir moda ecologicamente correta sem sacrificar o estilo. Além do algodão orgânico, tecidos produzidos a partir do bambu - que cresce mais rápido e é mais barato para cultivar que o algodão - e lã orgânica - em substituição à de carneiros submetidos a banhos ou injeções de pesticidas - são preferidos por designers como o norueguês Per Åge Sivertsen, o dinamarquês Peter Ingwersen, a americana Eviana Hartman, ou a inglesa Stella McCartney.

O tingimento, que passou a ser feito com tintas sintéticas em meados do século 19, é um grande colaborador na poluição da água e do ar, causando desde irritação na pele a envenenamento por inalação de pó ou gases. Para evitar esses riscos, Eco-Fashion destaca a tecnologia AirDye, que usa ar em vez de água para fazer o corante penetrar nas fibras. Inspirando-se na antiguidade, quando as cores eram extraídas de plantas e animais, a americana Katie Brierley tingiu a seda de um longo que criou no começo deste ano com corante feito a partir da raiz de garaça, planta da mesma família que o café. E a inglesa Jennifer Ambrose usa ervas para tingir toda a sua linha de lingerie.

Crueldade. Cruel para os animais, o uso do couro natural também é nocivo para os humanos. A pele dos bichos é curtida com cromo, metal pesado que não se decompõe na natureza, e sulfetos altamente tóxicos. Mesmo o sal, usado no processo, não tem filtragem fácil e prejudica o ecossistema. Por sua vez, a opção sintética para o couro é produzida com petroquímicos, que também não são biodegradáveis. Uma alternativa sustentável nesse caso é o couro falso de microfibra com que são fabricados os sapatos da americana Charmoné, por exemplo, que tem parte da sua produção feita no Brasil.

Um longo de brim orgânico plantado na Tunísia da etiqueta Edun, fundada pelo roqueiro Bono, e outro criado pelo brasileiro Carlos Miele, de seda com fuxicos feitos pelas mulheres da Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da Rocinha (Coopa-Roca), lembram aspectos menos visíveis no alinhamento da moda com a ética e as questões ambientalistas. É o respeito aos trabalhadores dessa indústria globalizada - do cultivo de fibras ao transporte de peças prontas -, e a valorização de ofícios tradicionais como o de costureiras e bordadeiras.

Para desenvolver um padrão de consumo sem desperdícios, os eco-designers apontam ainda o investimento em alta qualidade e produtos duráveis. Moda ecologicamente correta pode seguir o que aconselhava a estilista italiana Elza Schiaparelli (1890-1973) nos seus 12 mandamentos para as mulheres: "Deve-se comprar pouco e só do melhor ou do mais barato."

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