Mundo em perigo

1ª Mostra Ecofalante traz para a cidade os melhores do cinema ambiental

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h11

Começou ontem para convidados, e será aberta hoje para o público, a 1.ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, que ocorre na cidade até quinta-feira. Como o nome já deixa claro, o evento elege o meio ambiente como seu principal foco e protagonista. Por 'meio ambiente' entenda-se muito mais que o já batido binômio 'índios e florestas'.

O meio em que vive a grande maioria dos seres humanos é urbano, poluído, caótico e enfrenta questões que vão desde a poluição dos rios e córregos metropolitanos até o excesso de veículos, consumo desordenado e superpopulação. "Temos de mudar nosso conceito de que meio ambiente é só 'a natureza'. Mais do que tudo, é uma questão urbana. Quem sofre as principais consequências da forma como tratamos o planeta são as pessoas que vivem em grandes centros urbanos", comenta Chico Guariba, diretor e criador do festival.

Obviamente, tudo isso está profundamente ligado aos problemas florestais e vice-versa. O efeito causa e consequência é crucial quando se discute os enormes desafios de se aproveitar com responsabilidade os recursos do meio em que se vive.

Se as temáticas ambientais vão muito além dos clichês, a seleção de filmes de um festival sobre o assunto também deve seguir esse caminho. "O que eu mais queria era mostrar que há muito mais tipos de filmes ambientais do que imaginamos. Neste primeiro ano, temos os eixos do Ativismo, Povos e Lugares, Consumo, Energia e Mudanças Climáticas", conta Guariba, ele próprio documentarista que trabalha atualmente em uma série em coprodução com a TV Cultura sobre o desafio do desenvolvimento sustentável: Metrópoles.

"Nosso modo de vida é muito afetado pelas grandes mudanças do meio ambiente atual. E isso é muito dramático. Queria ter trazido um tema só sobre cidades. Mas, quando fui pesquisar a produção mundial, não encontrei uma amostra suficiente de filmes que tratam da vida nas metrópoles. O que é absurdo. Se pensarmos no Brasil, onde 90% da produção de documentários do gênero são sobre a questão indígena, sendo que 97% da população brasileira vive em cidades, é absurdo."

Se a questão ambiental é urbana, é também assunto de cinema. O velho clichê do 'filme sobre natureza parado e sem grandes emoções' passa longe da programação do Ecofalante. Prova disso é a presença de três indicados para o Oscar. A propósito, é surpreendente o efeito que filmes do gênero têm provocado no mercado de cinema. Nos últimos sete anos, obras sobre a questão ambiental estiveram entre os finalistas ao Oscar de melhor documentário, sem contar ficções inspiradas em casos reais como Erin Brockovich.

A grande atração desta primeira edição do evento é If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front. Indicado para o Oscar deste ano, é um dos mais polêmicos filmes já produzidos sobre o desflorestamento.

Conta a história de Daniel McGowan, que foi preso em 2005 por agentes federais norte-americanos e condenado à prisão perpétua por ecoterrorismo. Espécie de thriller policial, o filme discute a definição de terrorismo e, ao mesmo tempo, entrelaça a sucessão de fatos que levaram à prisão de McGowan com os principais crimes cometidos por madeireiras.

Outro 'oscarizável' é The Cove, de Louie Psihoyos. Indicado para o prêmio em 2010, retrata a tragédia por trás da vida de Richard O'Barry, que ganhou fama mundial por treinar golfinhos do seriado de TV Flipper.

Na linha Povos e Lugares, a principal atração é Overdrive, da turca Aslihan Unaldi, que está na cidade participando de debate sobre seu filme na segunda. O filme revela como a ocupação exagerada de carros transformou a cidade de Istambul em um caos urbano. Qualquer semelhança com São Paulo não é mera coincidência.

A propósito, um dos principais intuitos do festival é trazer atenção para o tema e incentivar a produção nacional sobre ele. "É incrível como um país como o Brasil, em que a questão é crucial, não produza mais documentários sobre tantos assuntos que temos. E não falo só de Belo Monte, Xingu, transposição do São Francisco não... São Paulo, por exemplo, é uma capital onde toda a água está morta. E não há perspectiva nenhuma de melhorar. Se isso não é um grande tema ambiental, não sei o que é, então", diz Guariba.

Por falar nos três grandes problemas atuais do Brasil, eles estão contemplados na mostra com À Margem do Xingu: Vozes Não Consideradas, de Damià Puig, e Sertão Progresso, de Cristian Cancino. O primeiro retrata justamente a polêmica de Belo Monte. O segundo aborda a questão da transposição do Rio São Francisco. Como não poderia deixar de ser, o festival conta com uma retrospectiva dos mais significativos filmes brasileiros sobre questões variadas. Destaque para o brilhante Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, que narra a saga de Carapiru, um índio nômade que, após escapar do massacre de seu grupo familiar em 1977, perambula sozinho pelo Brasil.

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