Munch lance a lance

Como foi o leilão em que O Grito, do artista norueguês, alcançou valor de US$ 119,9 mi

O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h09

Bastaram 12 tensos minutos e cinco concorrentes ávidos para o famoso pastel de 1895, O Grito, de Edvard Munch ser vendido por US$ 119,9 milhões, tornando-se a obra de arte mais cara do mundo já vendida em leilão.

Podiam-se ouvir concorrentes falando chinês e inglês (e, segundo alguns, norueguês), mas o lance vencedor misterioso veio por telefone, via Charles Moffett, o vice-presidente executivo da Sotheby’s e vice-chairman de seu departamento mundial de arte impressionista, moderna e contemporânea. Suspiros de espanto podiam ser ouvidos à medida que os lances subiam cada vez mais, até que houve uma pausa em US$ 99 milhões, levando Tobias Meyer, o leiloeiro da noite, a sorrir e dizer: "Eu tenho todo o tempo do mundo". Quando o lance chegou a US$ 100 milhões, a plateia começou a aplaudir.

Munch fez quatro versões de O Grito. Três estão hoje em museus noruegueses; a que foi vendida na quarta-feira era a única ainda em mãos privadas. Ela foi vendida por Petter Olsen, um empresário norueguês cujo pai foi amigo, vizinho e protetor do artista. A imagem tem sido profusamente reproduzida na cultura popular nas últimas décadas, tornando-se um símbolo universal de angústia e terror existencial, quase tão famosa quanto a Mona Lisa.

Do lado de fora da Sotheby’s, houve uma excitação de outra ordem, com manifestantes protestando contra o prolongado locaute da empresa contra técnicos no manuseio de obras de arte agitando cartazes com a imagem de O Grito junto à palavra de ordem "Sotheby’s: Ruim para a Arte".

Muitos do grupo - uma mistura de membros do sindicato e manifestantes do Ocupem Wall Street - chegaram a soltar gritos quando o quadro foi vendido. Segundo um manifestante, Yates McKee, a obra de Munch foi um enfoque apropriado para o grupo. "Ela exemplifica como objetos da criatividade artística viram território exclusivo do 1%."

Lá dentro, a atmosfera criada pelo preço recorde da obra se conservou durante o resto do leilão, que teve preços altos para tudo, de pinturas de Picasso a esculturas de Giacometti e Brancusi. Dos 76 lotes em oferta, só 15 não foram vendidos. O total da noite foi US$ 330,56 milhões, perto de sua estimativa mais otimista de US$ 323 milhões.

Como ocorre geralmente em leilões com atrações especiais, ter O Grito à venda ajudou a obter outros negócios. Sua inclusão foi um chamariz, por exemplo, para o espólio de Theodore J. Forstmann, um financista de Manhattan, que morreu em novembro. A principal obra de sua coleção era Mulher Sentada na Poltrona, de Picasso, um retrato de 1941 de Dora Maar, a musa e amante do artista. A pintura saiu por US$ 26 milhões.

Em 2004, Forstmann adquiriu O Mensageiro do Maxim’s, de Soutine, um retrato de 1925 de um empregado do célebre restaurante francês, por US$ 6,7 milhões num leilão da Sotheby’s. Ele pertencia a Wendell Cherry, vice-chairman da empresa de saúde Humana, que morreu em 1991, e sua mulher, Dorothy. Na última quarta-feira, a pintura foi novamente colocada à venda, desta vez com uma estimativa de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões, que se revelou otimista. Dois concorrentes disputaram o Soutine, que acabou sendo vendido para um concorrente via telefone, por US$ 8,3 milhões.

Mais popular, contudo, foi a paisagem de Gauguin, de 1892, Cabana Sob as Árvores, que Forstmann havia comprado na Christie’s em 2002 por US$ 4,6 milhões. Na quarta-feira ela estava estimada em torno de US$ 5 milhões a US$ 7 milhões e saiu por US$ 8,4 milhões.

O surrealismo esteve na crista da onda recentemente - e a Sotheby’s teve muitos exemplares para vender. Entre os melhores estava Primavera Necrófila, de Dali, pintura de 1936 que um dia pertenceu a Elsa Schiaparelli, a estilista de Paris associada ao movimento surrealista. Seis concorrentes disputaram a obra, que saiu por US$ 16,3 milhões, bem acima da estimativa superior de US$ 12 milhões.

Outra imagem surrealista popular foi Leonora à Luz da Manhã, de Ernst, uma pintura de 1940 que mostra sua amante, Leonora Carrington, uma artista mexicana de origem inglesa, saindo de uma mata luxuriante.

O quadro foi vendido por US$ 7,9 milhões, acima da estimativa superior de US$ 5 milhões.

Uma cabeça de bronze dourada que Brancusi concebeu e fundiu em 1911 foi outra peça que alcançou alto valor na noite, chegando a US$ 12,6 milhões, bem acima da estimativa de US$ 6 milhões a US$ 8 milhões.

Mas foi o preço recorde de O Grito que capturou a imaginação de todos. Tão logo o martelo foi batido, começaram a circular rumores sobre quem poderia ser o comprador. Entre os nomes aventados estavam o do financista Leonard Blavatnik, do magnata da Microsoft, Paul Allen, e de membros da família real do Catar.

Apesar do preço obtido pela obra de Munch ter surpreendido alguns negociantes, ao menos um deles não ficou. "É bom de ver a centralidade da Noruega no mainstream da cultura ocidental", disse Ivor Braka, um dealer de Londres. "O Grito é mais que uma pintura, é um símbolo de psicologia na medida em que antecipa os traumas da humanidade no século 20." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

 

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