Multishow exibe show de Marvin Gaye em 1976

Abstraia diante do paletó listrado, da camisa amarela com gravata borboleta verde, brilhante como a calça. O visual é datado - 1976 - mas a música ecoa até hoje. Depois, palco não era mesmo a praia do grande Marvin Gaye, mestre da soul music, morto pelo próprio pai no trágico 1º. de abril de 1984. Mas isso já é uma outra história. O especial que o Multishow apresenta hoje às 21h30, na série Carlsberg Music Live, foi registrado ao vivo no Eden Halle, em Amsterdã, na Holanda, em 1976. É meio precário, gravado com poucas câmaras, com cortes ruins mas que, mesmo assim, vale a pena porque não há muito material disponível do artista em cena. O show foi feito na época em que Marvin Gaye refugiou-se na Europa depois de separar-se de Anna Gordy, irmã do todo poderoso Berry Gordy, o dono da Motown, a mais influente gravadora de black music nos anos 60, 70 e 80, nos Estados Unidos. É claro que Marvin Gaye fez parte do elenco da Motown. Não só fez parte, como revolucionou a gravadora ao lançar em 1971 What´s Going On, considerado o primeiro disco conceitual de um artista negro. Tocado pela tragédia do irmão que voltou aleijado do Vietnã, ele começou a falar em suas letras, não só da guerra, como da vida nos guetos e da violência urbana. Neste disco mudava uma regra básica da indústria fonográfica da época: as faixas não duravam mais do que dois minutos. Ele rompeu com isso, dando a cada canção o tempo que ela pedia. Menino-prodígio - Marvin Gaye nasceu em 1939 em Washington e teve aquela trajetória comum a muitos artistas negros: tocou orgão na igreja onde o pai era pastor, e cantou no coro gospel, desde pequeno. Formou depois um grupo chamado Marquees, que acompanhou Bo Didley. A mudança para Detroit fez sua carreira crescer e aparecer. No grupo Moonglows, foi ouvido por Berry Gordy. Acabou tocando bateria na banda de Smokey Robinson, então o principal nome da Motown e, em seguida, lançando os compactos simples, disquinhos com lado A e lado B, que já mostravam a que vinha. Um dos seus compactos que caiu no gosto do público americano (negro e branco) tinha I Heard it Through the Grapevine, de 1968, que novas gerações de brasileiros conheceram através de uma gravação de Marisa Monte. A lista de sucessos de Marvin Gaye é enorme e tem Sexual Healing, Mercy Mercy Me e muito mais - pelo menos uma dúzia de discos do cantor foram lançados no Brasil. Bancarrota financeira, tentativa de suicídio por uma ingestão brutal de cocaína pura, dois casamentos que acabaram em divórcios tumultuados, anos longe de estúdios de gravação, a guerra pessoal com o pai, a morte a cantora Tammi Terrell, com que formou um dueto histórico, tudo isso ajudou a construir o mito Marvin Gaye. Não houve meio termo na vida deste homem tímido, que não tinha o menor jeito para o palco e que, no fundo, só queria ser um cantor como Nat King Cole ou Frank Sinatra. O especial do Multishow é um bom pretexto para se garimpar velhos discos do grande soulmen, só para conferir o quanto continua bom.

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