Múltipla escolha

Os muitos sotaques de Zé Ricardo, o homem dos encontros no Rock in Rio

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Tudo ao mesmo tempo agora. Esse lugar-comum de um certo caos que vem da letra de uma canção dos Titãs bem poderia ser o lema de Zé Ricardo. Cantor, compositor, violonista e curador do palco Sunset do Rock in Rio, ele lança o quarto álbum, Vários em Um (Warner), com show na ainda não inaugurada casa noturna Studio RJ, em setembro, em meio ao turbilhão do festival, em que promove encontros inéditos entre brasileiros e estrangeiros e monta até repertório.

"Sou um cara muito inquieto pra fazer uma coisa só de cada vez", diz o cantor. "Acho que iria morrer de tédio se eu fizesse um disco, saísse em turnê, depois tirasse férias. A estrada, o trabalho, a mesmice faz muita gente perder esse brilho, que é por que a gente começou. O Rock in Rio me dá essa oportunidade de ficar motivado. Nunca pensei que pudesse montar um repertório dos Titãs, por exemplo, como vou fazer agora."

Louco por todo tipo de música, se alguém fala de um artista novo para Zé, ele já se sente na responsabilidade de ouvir, de pesquisar, porque pode apresentar esse artista para alguém e ir fomentando a cadeia produtiva da música, já que só acredita no intercâmbio como forma de criação. "Cresci muito, não só de conhecer, mas também de tocar com tantos artistas."

No CD produzido por Plinio Profeta, ele assina duas canções sozinho e outras com vários parceiros - Jorge Salomão, Edu Krieger, Davi Moraes, Mauro Ribas, Gabriel Moura, Dudu Falcão, Regis Faria -, além de reinterpretar Eu Só Quero Um Xodó (Anastácia/Dominguinhos). Algumas surgiram depois de noitadas de samba e cerveja na Lapa carioca.

O título do CD pode ser interpretado pela diversidade sonora que abrange a formação do músico e as soluções sonoras desse trabalho, além de ele cantar samba, soul, funk, xote e balada. Mas na verdade surgiu de uma angústia pessoal: "Não consegui ir à reunião da escola do meu filho, num dia em que eu tinha de ligar pro Mike Patton e colocar a voz no primeiro samba do meu disco, tudo na mesma hora", diz.

A reunião caiu, sua empresária mandou um e-mail para o empresário do Patton, dizendo que ele ia ligar depois. Zé então foi para a casa de Jorge Salomão e começaram a "esquartejar um poema dele", daí surgiu a canção-título do CD. "Precisava fazer essa música senão iria pirar."

O mix de samba e soul pelo qual Zé Ricardo ficou conhecido vem da família. "Meu pai toca violão de 7 cordas e cavaquinho, cresci ouvindo Jacob do Bandolim, Waldir de Azevedo e Luiz Gonzaga com ele e, com minha mãe, Nat King Cole, Otis Redding e Marvin Gaye. Cresci com essas referências e tenho muito respeito pelo samba, sempre gravei samba, mas de um jeito mais estilizado, com funk e groove. Isso para mim é natural."

Seu violão "grooveado", que Plinio Profeta fez questão de valorizar na produção desse CD, também vem de referências insuspeitas. "Acho que tem uma música na brasileira um tipo de violão muito específico, percussivo, que me influenciou, que Djavan, Lenine, João Bosco, Gilberto Gil têm", diz. Essa especialidade é que ele costuma chamar de "cudugudugu". "É você fazer um comentário na nota, enquanto a harmonia está andando", explica.

Na época em que ele achava que estava tocando direito, "com umas levadas legais", Zé foi ver um show de João Bosco no Circo Voador e saiu de lá humilhado, querendo parar com tudo. "Mas o bacana do mestre, do gênio, do que cara que o influencia, é ele estimular a você se descobrir."

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