Divulgação
Divulgação

Multidisciplinaridade marca volume de ensaios de Alexandre Eulalio

Escrita inventiva se 'cola' aos textos estudados e deles se alimenta

Antonio Arnoni Prado,

14 de setembro de 2012 | 19h00

Tempo Reencontrado, coletânea de ensaios de Alexandre Eulalio (1932-1988) organizada por Carlos Augusto Calil, oferece ao leitor uma experiência enriquecedora que não deixa de trazer consigo um breve, mesmo que velado, sentimento de perda.

Discípulo de Augusto Meyer e de Brito Broca, intelectual obsedado pela recuperação de textos e biografias que o tempo soterrou, Alexandre impôs-se desde sempre - na expressão de Calil - "a responsabilidade de preservar", que ele atualiza através de uma leitura inventiva, integrada e iluminadora, cujas faces oscilam entre a literatura e a pintura, a arquitetura e a música, sem esquecer o teatro e o cinema (é autor de um filme sobre Murilo Mendes), sempre ao encalço de uma "plataforma multidisciplinar" para a qual o ponto de chegada é a representação visual no contexto de um determinado tempo histórico.

É esse crítico de associações infindáveis, "inventor involuntário do hipertexto" e capaz, por exemplo, de nos revelar, num relance, uma sequência inteira de talentos esquecidos; é o rastreador dos poemas obscuros e das telas mal pintadas, que Calil aproxima de Paulo Emílio Sales Gomes por suas afinidades ao que é "bárbaro e nosso", é esse o crítico que os ensaios de Tempo Reencontrado nos revelam.

É verdade - e este é um ponto que interessa de perto à recepção do livro - que acompanhar os seus movimentos de leitura não é tarefa das mais simples. Diante das análises e associações de Alexandre Eulalio, a impressão que nos fica é a de vagarmos no mar alto da reflexão cruzada e simultânea, seja no plano da leitura estilística e da morfologia dos textos, seja no das articulações da figuração visual com o substrato de suas referências.

Ao buscar compreendê-las, o melhor caminho para o leitor será integrar as perspectivas que se abrem sem nunca perder de vista os três planos em que parece assentar o seu processo de leitura. O primeiro deles é o da pesquisa sincrônica do contexto estético e histórico das obras, mas também dos autores, dos estilos e dos períodos, em cujo centro - como uma espécie de eixo iluminador intransferível - Alexandre se lança às expansões comparativas e multidisciplinares mais inesperadas.

Em Tempo Reencontrado, é talvez este o filão mais rico para o leitor atento. É dele, por exemplo, que ressalta o alcance vertiginoso da imaginação crítica interessada em nos revelar em que medida os jogos de paródia e o tom herói-cômico do capítulo 48 Terpsícore) do romance Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, acabam suscitando no pintor Aurélio de Figueiredo o travejamento heurístico que, segundo Alexandre, servirá de roteiro ao quadro A Ilusão do Terceiro Reinado (1905), talvez a mais famosa de suas telas.

Aqui, preocupado em reafirmar a sua hipótese, Eulalio recupera uma velha crônica do Jornal do Commercio de 10 de novembro de 1889, em que Raul Pompeia - como testemunha do último baile da Ilha Fiscal - registra "no calor da festa" as infinitas sensações visuais de que o crítico se vale para "reencontrá-las" num relato do próprio punho do pintor Aurélio de Figueiredo, de março de 1907, onde julga redescobrir "o feérico roteiro das fantasmagorias projetadas", naquele mesmo cenário, pelas personagens do referido capítulo do romance.

Como estas, seriam muitas as correlações a assinalar nesse primeiro plano da crítica de Alexandre: a "perplexidade criadora" de um Henrique Alvim Correia ante as marcas insanáveis da violência; o itinerário de Cornélio Pena entre a ficção e as primeiras impressões visuais hauridas em Gustave Moreau; a presença virtual de Giorgio de Chirico (A Melancolia da Partida) como base preliminar para um estudo meticuloso da obra múltipla de Jorge de Lima.

Mas o que amplia as dimensões da leitura é a incansável imaginação restauradora que vasculha no tempo os sinais ocultos dos valores perdidos. E aqui é como se as trilhas nos conduzissem para um largo espectro de panoramas dispersos e tão surpreendentes quanto a trajetória burlesco-caricatural de um Aluísio Azevedo refundindo cenários assimétricos na "abordagem brincalhona da escrita encarada como grafomania" (Matos, Malta ou Matta?: Romance ao Correr da Pena). Ou a da escavação dos lineamentos literários do conto Luís da Serra, de Lúcio de Mendonça enquanto escritor de transição, para não citar o balanço trágico da Geração dos Insubmissos proposto por Gonzaga Duque em Mocidade Morta.

A marca do crítico, no entanto, só se completa num o terceiro momento desse processo: o da escrita inventiva que se "cola" aos textos estudados e deles se alimenta, como se Alexandre, para falar de um autor, se obrigasse ao exagero de "reproduzir" o seu estilo, o que obrigava a refazer o contexto inteiro de seu processo de composição.

Coisa singular, convenhamos, e muito longe do nosso tempo, em que os riscos da leitura inventiva como que perderam sentido ante as imposições, cada vez mais urgentes, da crítica como divulgação palatável aos critérios cada vez mais pragmáticos do mercado editorial.

ANTONIO ARNONI PRADO É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE TRINCHEIRA, PALCO E LETRAS (COSAC NAIFY)

TEMPO REENCONTRADO

Autor: Alexandre Eulalio

Organização: Carlos

Augusto Calil

Edição: 34/IMS

(272 págs., R$ 49)

 
Tudo o que sabemos sobre:
Alexandre Eulalio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.