Mulheres, vítimas no livro premiado

Mulheres, vítimas no livro premiado

Ao receber o Prêmio Goncourt no ano passado como a primeira mulher negra laureada pelo equivalente do Nobel francês, Marie NDiaye, nascida em Pithiviers, França, de pai senegalês e mãe francesa, ficou um pouco irritada com a mídia por ter destacado sua cor ao se referir à homenagem. "Não estou representando nada nem ninguém, pois conheço franceses criados na África que são mais africanos do que eu."

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

De fato, Marie NDiaye não representa nenhum partido nem se apresenta como militante. Seus livros falam de pessoas convictas de sua "inalienável individualidade", como a de Khady Demba, a segunda das Três Mulheres Poderosas, livro que garantiu a ela o Goncourt e que a Cosac Naify está traduzindo para futuro lançamento no Brasil. Khady trabalha como empregada e, banida da casa dos pais do marido quando esse morre, é forçada a emigrar para a Europa, destino ao qual nunca chegará, errando no limbo da prostituição entre os dois continentes.

São três mulheres no livro, claro ? mas nada poderosas, ao contrário do que sugere o título. Vítimas da própria condição, elas sucumbem ao poder patriarcal mesmo quando parecem livres dele. Na primeira narrativa, Norah, uma advogada quarentona, deve defender o irmão Sony num caso de assassinato cometido em Dacar e, para sua surpresa, acaba descobrindo que é uma vítima do pai tanto quanto o garoto.

Essa simétrica relação de infelicidade marca a história central de Três Mulheres Poderosas, a da senegalesa Fanta e seu marido Rudy, que nasceu em Bordeaux, mas viveu com seu pai francês na terra da esposa, prestes a abandoná-lo mais uma vez desde que voltaram à França. É uma história com claras referências autobiográficas: a sensação de isolamento de Rudy deve ter sido a mesma do marido francês de Marie Ndiaye, que viu em Berlim um novo posto e uma nova possibilidade de reconstituir a vida familiar longe de Sarkozy e da França profunda dos subúrbios.

A autora diz que escreveu o livro como uma peça musical em três movimentos, todos eles ligados por um tema recorrente, o da força interior que manifestam as protagonistas femininas da trilogia de Marie NDiaye, um nome para não ser esquecido. /

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