Mulheres na guerra de Zhang Yimou

Aos 15 anos, a dançarina Yan Geling integrou-se ao Exército de Libertação do Povo, durante a Revolução Cultural. Hoje, é um dos grandes nomes da literatura sino-americana, com vários romances e contos publicados. Entre roteiros e adaptações, ligou seu nome a Ang Lee, Chen Kaige, Sylvia Chang e Zhang Yimou. Este último assina Flores do Oriente. No original é Flores da Guerra, uma adaptação do livro As 13 Mulheres de Nanjing.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 06h42

Em Berlim, em fevereiro, Flores do Oriente provocou certa sensação no festival porque assinalava o retorno de Yimou à Berlinale, onde colheu seu primeiro grande prêmio (O Sorgo Vermelho) e também por causa da parceria com o astro de Hollywood Christian Bale. O Batman de Christopher Nolan disse ter sido um privilégio trabalhar com um perfeccionista como Yimou. O diretor continua com seu olho especial para a beleza. Isso significa cores, figurinos, sets e atrizes deslumbrantes, como a estreante Ni Ni.

Elas são 13 - todas prostitutas que, durante a invasão japonesa de Nanjing (Nanquim, capital de Jiangsu), em 1937, se refugiam na igreja da missão norte-americana. Aí se envolvem com um falso padre, o personagem de Christian Bale, e com crianças que é preciso salvar na tormenta que se abateu sobre o país. Na condução do drama, Zhang Yimou mostra que virou um caso emblemático da China, não só de seu cinema.

Astro da chamada 'quinta geração', ele era perseguido no regime comunista pelos retratos de mulheres na sociedade patriarcal (e de classes). Com a projeção que ganhou no exterior, e a mudança de regime, virou um artista 'oficial'. Assinou o grande espetáculo de abertura das Olimpíadas de Pequim. Muitos críticos viram naquilo uma aberração à maneira de Leni Riefenstahl - um esmagamento do indivíduo num regime de capitalismo selvagem que legitima o trabalho escravo. A China abriu a economia, não a política.

Flores do Oriente começa em meio a combates sangrentos. O falso padre, de crápula, passa a herói, as prostitutas são santas (ou quase). Nada é o que parece ser. Nem mais o cinema de Zhang Yimou. Há 20 anos, haveria uma legião de críticos a elogiá-lo. Hoje, exceto a beleza visual, o ex-perseguido passou para a zona de conforto do maior orçamento da história do cinema chinês (US$ 90 milhões). Seu retrato da brutalidade dos ocupantes equivale a um partido na rivalidade comercial entre China e Japão.

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