Mulheres, fascínio na tela e fora dela

Quase meio século separa o novo Jean-Luc Godard, Film Socialisme, de Viver a Vida, que ele fez em 1962, com sua então mulher, Anna Karina. O primeiro estreia nos cinemas, o outro está disponível em DVD (pela Magnus Opus, em oferta nas lojas).

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Há um mistério da mulher no cinema de Godard. Irrompeu logo no primeiro filme, Acossado, quando Jean Seberg, como Patriciá, com acento no A final, pisou na avenida dos Champs Elysées como vendedora do The New York Herald Tribune.

A maneira como diz o nome do jornal, a frase musical, tudo criou um momento mágico que permanece no imaginário do cinéfilo.

Logo no segundo longa, Godard publicou um anúncio no jornal procurando uma atriz para Uma Mulher É Uma Mulher que também o satisfizesse na cama. Pode fazer parte do folclore do filme (e de Godard), mas, como a história é boa, o próprio John Ford (O Homem Que Matou o Facínora) concordaria que deve ser contada.

O filme, Une Femme Est Une Femme, inaugura na obra de Godard um diálogo da mulher com seu corpo, com sua natureza, cujo ápice talvez tenha sido Je Vous Salue Marie, em 1985.

Angelá, em Uma Mulher, quer o filho que Jean-Claude Brialy lhe nega, mas Jean-Paul Belmondo está disposto a fazer. Maria, a mãe de Deus, transformada em mulher moderna, encarna, de certa forma, um dilema parecido.

Entre esses extremos, Jean-Luc Godard fez filmes como Viver a Vida e Uma Mulher Casada. O segundo, curiosamente, foi lançado quando o seu divórcio de Anna Karina estava sendo homologado. Naná (Karina) é, no primeiro, uma prostituta que acredita que poderá vender seu corpo sem perder a alma.

Em 12 quadros, incluindo uma estação no cinema - quando ela chora assistindo a O Martírio de Joana d"Arc, de Carl Theodor Dreyer -, Godard mostra o equívoco de Naná.

Ao longo de sua carreira, Godard muitas vezes entrou em corpo a corpo com os mitos. Aqui mesmo no Caderno 2, há muito tempo, o jornalista gaúcho José Onofre escreveu que ele, como Freud, encara os mitos, sejam religiosos ou não - e não importa de qual religião -, como linguagem.

Linguagem. Tudo é sempre linguagem para Godard. Linguagem do cinema para o diretor, do corpo para sua atriz. O tema da prostituição voltou outras vezes para ele, mas nunca como em Viver a Vida. Magnificamente fotografada - em preto e branco - por Raoul Coutard, Anna Karina olha para a câmera. Ao fundo, a música de Michel Legrand. Naná pode perder a alma, mas o filme permanece como um dos grandes do autor.

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