Editora Cosac Naify/Divulgação
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Mulheres, eterno enigma

Decifrar a singularidade feminina, eis a missão de Péter Esterházy

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

São 97 capítulos (ou fragmentos), todos iniciados pela mesma frase: "Há uma mulher." Com esse artifício, o húngaro Péter Esterházy compôs Uma Mulher (tradução de Paulo Schiller), livro recém-lançado pela Cosac Naify, que confirma sua fama como um dos principais autores europeus da atualidade. Afinal, nem com todas as peças é possível montar o quebra-cabeça e decifrar a singularidade do ser feminino. Mesmo assim, Esterházy passeia com desenvoltura pelos principais temas como sexo, velhice, amor e política.

Matemático de formação, herdeiro de uma linhagem da aristocracia húngara, o autor terá sua obra-prima, Harmonia Celestes, lançado pela mesma editora. Sobre seu ofício, Esterházy respondeu, em húngaro, às seguintes questões. A tradução é de Carolina Domladovac Silva.

Como funciona seu método de escrita? Seu conhecimento matemático é determinante?

Não sei se eu realmente tenho um método. É como se os métodos variassem de livro para livro. Eu também me modifico; também através dos livros. E também permaneço o mesmo. O fato de ter estudado matemática, certamente, influencia meu modo de pensar e, assim também, minha escrita. Se isso é claramente notável, é questionável. A concepção musical do texto é importante pra mim, como motivos, repetições, etc. Em geral, uma espécie de consciência da forma.

O senhor nasceu na década de 1950, viveu sob o regime socialista e participou do momento que culminou com a dissolução do Pacto de Varsóvia. Qual o grau de simpatia que o senhor dedica, por exemplo, a movimentos como a avant-garde austríaca capitaneada por Peter Handke?

A liberdade após 1989 não resultou em nova radicalidade na literatura. A época das inovações foi antes, no fim dos anos 70 e início dos 80. Na verdade, quando eu comecei a escrever, a literatura austríaca era muito importante, também por causa do enfoque na linguagem centrada ou na linguagem filosófica; ver, por exemplo, Wittgenstein. Enquanto jovem autor, Handke foi importante; foi algo totalmente diferente com que me deparei em casa, na Hungria.

De que forma esse histórico familiar o auxilia a dizer coisas universais em seus romances?

Minha família é conhecida como uma velha e grande família aristocrática. Para mim, isso significa que tenho uma relação pessoal com a história de meu país ou até mesmo da Europa. Ou ainda mais: com a época, em geral. Tradição, geralmente, de uma história familiar. Talvez seja um pouco demais dizer isso, mas é verdade, ou quase verdade.

Os escritores, hoje, são personagens importantes na mitologia desenhada pela cultura de massas. O que o senhor pensa disso?

Há um ditado húngaro: "Por causa do vento, não se pode mijar." É ruim quando isso se incorpora diretamente à literatura (não o mijo, mas sim o pensamento da cultura de massas). Já há sinais disso. Como, por exemplo, se equipararmos sucesso com qualidade. Há livros que fazem sucesso e nós os achamos ruins, mas o inverso acontece cada vez menos: ou seja, nós acharmos um livro bom e ele não ter sucesso. Isso é perigoso, digamos assim, para o espírito da literatura. Além disso, eu não vejo essa importância. Na ditadura, a literatura era muito importante, extremamente importante. Essa mitologia da cultura de massas realmente existe, mas no Leste Europeu os escritores não participaram desse jogo.

O que pensa sobre o predomínio, em boa parte da literatura de hoje, da estética próxima da realidade mais imediata?

Como, para mim, a realidade não é algo dado, mas sim criado apenas pela escrita, vejo isso com certo distanciamento. Com toda estética possível, pode-se escrever bons livros. E ruins também.

A amargura e o tédio são os grandes males contemporâneos? Por que vivemos tempos tão cheios de desgosto?

Blaise Pascal já escrevia muito (e belamente) sobre o tédio, em grande parte, dos antigos romanos, que também sabiam muito a esse respeito. Por isso, não somos novatos nesse assunto. Mas talvez você esteja certo, é um tempo de calmaria, não acreditamos no futuro, não confiamos na razão, no raciocínio, o Iluminismo permanece, de alguma forma, emperrado... Mas não vou fingir que poderia responder corretamente. Essa insegurança também é um fenômeno temporal, eu suspeito.

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