Mulheres e sua relação poética com o desejo

O Núcleo Artérias estreia hoje o mais novo espetáculo criado e dirigido pela coreógrafa Adriana Grechi

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2014 | 02h07

A mais recente criação de Adriana Grechi para o Núcleo Artérias, Escuro Visível, estreia hoje, às 20 horas, uma temporada de apenas quatro dias na Galeria Olido. O Núcleo surgiu em 2003, dando seguimento às experiências de Adriana como diretora e coreógrafa das companhias Nova Dança (1995-1999) e Nova Dança 2 (1999-2002).

Com o Núcleo Artérias, esta é a sua 15.ª criação e, segundo a coreógrafa, se trata de mais uma etapa no processo iniciado em Fleshdance, em 2012, que investiga a auto-organização. "Há muito tempo estou interessada em entender como um sistema complexo se auto-organiza com base nos desejos de cada um dos que o formam. Creio que vem vindo desde Bootstrapsãopaulo! (1999), mas só há dois anos, depois de Fleshdance (2012) reconheci esse como meu principal foco", conta ela, em entrevista telefônica ao Estado.

Para realizar sua investigação, Adriana criou uma metodologia. "Trabalho com focos muito fixos e com a concentração neles. A grande prática é o modo de a mente operar o movimento, perceber o movimento que acabou de acontecer para modular o próximo, pouco a pouco."

Conexão. Adriana Grechi deu nomes às suas estratégias de treinamento: "A trajetória não é definida, mas existe um roteiro para os modos de conexão. Chamamos o primeiro, no qual todos estão grudados e se deslocam assim, de esponja. Aos poucos, os corpos vão se separando e cria-se outra conexão, as ondas. Nesse outro modo, os corpos estão mais distantes e o impulso entre eles é transmitido em ondas pelo espaço. Do primeiro para o segundo, a transformação é gradual e modulada com as pessoas, e produz uma auto-organização".

Essa metodologia encontra em suas aulas um ambiente de teste. "Fico testando esse modo de operar com mais pessoas e esse fazer vai alimentando o trabalho que vou desenvolvendo com o grupo".

Como se trata de buscar modulação, caminhos entre os movimentos, implica também uma educação do olhar da plateia, uma vez que todos estamos acostumados a lidar somente com o desenho final do movimento. "Este trabalho é superdifícil de ser feito porque exige uma concentração enorme de quem o realiza. É necessário se manter atento ao modo como os outros criam os seus impulsos e também ao jeito como está realizando a sua parte, além de precisar cuidar da conexão entre todos, porque ela se transforma em função dessas ocorrências. Tem dias em que dá mais certo porque conseguimos concentrar mais."

Adriana comenta também que a sua proposta se relaciona com nosso modo de funcionar no mundo de hoje, quando vivemos mais aceleradamente, sem conseguir identificar as transformações graduais que conduzem ao resultado. Destaca que tanto o som de Dudu Tsuda, parceiro desde 2003, quanto a luz de André Boll, que a acompanha desde os tempos do Nova Dança buscam realizar a mesma proposta do trabalho.

"Investimos na percepção sensorial do acontecimento, tanto na luz quanto no som, destacando a qualidade que se transforma pouco a pouco e, quando a gente vê, já virou outra coisa", afirma ainda.

Em Escuro Visível, o Núcleo Artérias tem como objetivo explorar uma relação poética com o desejo, com aquilo que não é claro, não é definido, mas pode ser visto na ação enquanto ela está acontecendo e modificando o ambiente. Para isso, conta com as intérpretes Lívia Seixas, Carolina Minozzi e Nina Giovelli, que realizaram duas imersões artísticas com o mineiro Marcelo Gabriel e uma com Taoufiq Izeddiou, de Marrakech.

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