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Mulheres de Newton

Mostra em Paris reúne imagens que permitem ao público compreender o olhar do fotógrafo sobre o sexo feminino

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h10

Em 1975, uma sequência de fotografias, Rue Aubriot, realizada para uma coleção do estilista Yves Saint-Laurent, fez escândalo e entrou para a história da publicidade e da moda pela androginia com que tratava a mulher. Trinta e sete anos depois, as mesmas imagens em preto e branco estão espalhadas por Paris na forma de cartazes de uma exposição de arte, Helmut Newton, no Grand Palais. A ironia: denunciadas no passado por seu sexismo, as imagens hoje simbolizam a independência e a força com que o fotógrafo registrava a beleza feminina.

A exposição é a primeira retrospectiva desde a morte trágica de Newton - em 2004, em um acidente de trânsito - e refaz o percurso de 60 anos de profissão do fotógrafo por meio de 200 imagens. Nelas estão seus grandes temas: a moda, o nu, o sexo, o dinheiro, o glamour. Também estão os retratos que o celebrizaram e ajudaram a imortalizar mulheres como Catherine Deneuve, Grace Jones, Kate Moss e Claudia Schiffer, ou ainda homens como YSL ou o político extremista Jean-Marie Le Pen, "premiado" com uma releitura de Hitler ao lado de seus dobermann.

Nascido em Berlim em 1920, Helmut Neustädter era filho de pai judeu e mãe americana, membros de uma família burguesa da capital. Essas origens lhe transformavam em uma vítima potencial do Nazismo quando decidiu deixar o país, em 1938, partindo para Cingapura e, enfim, para a Austrália, onde se radicaria. Nessa época, havia recebido lições de fotografia de um mito da arte na Alemanha, Else Simon, ou "Yva", e colocaria suas lentes a serviço de uma visão de mundo na qual a figura da mulher era preponderante.

De volta à Europa nos anos 50, já com seu nome artístico, Helmut Newton cavou seu espaço como fotógrafo independente. Em 1961, instalou-se em Paris e construiu uma carreira sólida, contribuindo para publicações do mundo todo, em especial para Vogue.

É um fragmento dessa extensa obra que está exposta em Paris. Organizada por Jérôme Neutres, a retrospectiva revela a profundidade de sua visão sobre o sexo feminino. Para Newton, a mulher pode ser bela ou louca, andrógina ou hipersensual, divertida ou violenta, mas será sempre forte, dominante e, por vezes, dominadora.

Um dos grandes apelos da exposição é observar como o trabalho de Newton reflete a transformação do mundo da moda com o passar das décadas. Admirador incondicional das formas, o fotógrafo fugia dos rostos infantis e de corpos esqueléticos. Como lembrou Neutres, Newton via a mulher não apenas como um objeto, uma forma, mas como um sujeito

Newton afirmou certa vez: "Alguns fotógrafos fazem arte. Eu não. Se minhas fotografias são expostas em galerias e museus, tanto melhor. Mas não foi por isso que eu as realizei". A despretensão é um dos charmes da mostra: Newton reiterava seu papel como fotógrafo, parte do mundo mundano da moda com o qual se identificava. E essa é uma das chaves para entender sua importância: ao longo do século 20, homens como ele deixaram a banalidade de lado, fizeram da moda uma arte digna dos melhores museus.

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