Mulheres à beira dos ataques da ditadura

As Meninas, peça baseada no livro de Lygia Fagundes Telles, estreia sábado

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

28 de outubro de 2009 | 01h00

 

SÃO PAULO - Foi uma reação em cadeia. Impressionada com o vigor e a atualidade do romance As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, a atriz Clarissa Rockenbach decidiu adaptar o texto para o teatro. Era 2007 e sua motivação contagiou o produtor Fernando Padilha, que conseguiu os direitos com a escritora. O passo seguinte foi trazer Maria Adelaide Amaral para o grupo, encarregada da versão teatral. Foi um trabalho tão delicado que encantou a diretora Yara de Novaes e o ator Dan Stulbach que, na qualidade de diretor do Teatro Eva Herz, encampou o projeto para a sua programação. Assim, o resultado de tantas adesões, As Meninas no palco, poderá ser visto a partir de sábado, quando acontecem as estreias para convidados (17 h) e também para público (21 h).

 

"Tudo isso aconteceu porque o texto de Lygia Fagundes Telles agarra o público pela emoção", conta Maria Adelaide, que diz ter feito um trabalho de edição do livro. "Cada romance ou conto seu contém uma peça de teatro. Acrescente-se a isso a imensa compaixão pelo gênero humano."

 

Escrito em 1971 e publicado dois anos depois, ou seja, durante a fase mais aguda do regime militar, As Meninas acompanha a trajetória de três universitárias, que se revezam como narradoras da obra durante uma greve estudantil: Lorena (interpretada por Clarissa Rockenbach), fruto de uma educação esmerada, vive remoendo o passado; Lia (Silvia Lourenço), conhecida como Lião, ativista de esquerda dedicada à ação política clandestina; e Ana Clara (Luciana Brites), estudante de psicologia com sérios problemas existenciais. Aparentemente pouco movimentado, o romance concentra-se no retrato interior das três protagonistas e, por extensão, da moderna sociedade brasileira e todos os seus conflitos.

 

"Fiz pequenas intervenções, como concentrar apenas na personagem Irmã Priscila (Tuna Dwek) todas as freiras do pensionato onde vivem as três meninas", conta Maria Adelaide. "De resto, eu preservei o impressionante painel daquela época retratado por Lygia, em que as freiras representam a faixa conservadora da sociedade, impressionadas com a mudança de costumes, mais modernos, que se observa no comportamento das três amigas."

 

 

De fato, foi a atualidade de um texto que caminha para os 40 anos de vida o que mais impressionou a diretora mineira (e também atriz) Yara de Novaes. "É o retrato de um mundo em transformação, em que o caos criativo se instalava, para desespero das gerações mais velhas", conta ela, que decidiu unir discurso dramático com ações narrativas. Assim, os atores não saem de cena, mesmo que não carreguem o foco da atenção. Também os objetos têm diferentes significados, como as cadeiras que ora representam a ostentação do poder das freiras, ora o lugar reservado para as estudantes e também, mais trágico, uma representação do local de tortura.

 

Afinal, além de sua qualidade literária, As Meninas ousou ao tratar de um assunto proibido em pleno regime militar. Como contou ao elenco e à diretora, em um encontro em sua casa, Lygia incluiu na história a descrição de uma tortura. Na época (1971), a escritora recebeu um panfleto que detalhava a violência física sofrida por um preso político.

 

 

Impressionada, decidiu aproveitar o relato no romance que escrevia. Apesar do possível risco de censura, ela foi incentivada pelo marido, Paulo Emílio Salles Gomes - a desculpa seria que os personagens ganhavam liberdade no ato da escrita, o que impedia o controle de suas ações.

 

"Ficamos arrepiadas com sua narrativa", lembra-se Silvia Lourenço. "Afinal, o livro acompanha o rito de passagem de três adolescentes para a fase adulta mas em um momento de muita repressão." Esse, aliás, foi um dos temas do romance que mais impressionaram as jovens atrizes, que nem tinham nascido quando As Meninas chegou às livrarias.

 

"O mais curioso de tudo é que os problemas enfrentados por Lorena, Ana Clara e Lia são os mesmos que as mulheres de hoje", observa Luciana Brites. "O detalhe é que elas estão entrando nos 20 anos enquanto hoje são questões que preocupam quem já está com mais de 30."

 

O dilema provocado pela mudança de comportamento também marca o personagem vivido por Clarice Abujamra. "Eu vivo a mãe de Lorena, uma mulher fútil e atormentada por estar envelhecendo", comenta. "Na verdade, ela sofre por perder os valores que, de resto, também foram perdidos pela sociedade."

 

Assim, em um mundo conturbado, as meninas tentam viver isoladas em seu pensionato, mas acabam obrigadas a tomar importantes decisões. "Eis outro ponto positivo dessa história", segundo Clarissa Rockenbach. "O humanismo de cada uma é revelado por meio do fluxo de pensamento."

 

Único homem em cena, Julio Machado vive Max (frágil amante de Ana Clara) e Guga (colega de faculdade de Lorena). "Na verdade, apesar do movimento de emancipação vivido especialmente naquela época, as mulheres sempre buscam um ponto de apoio nos homens. Não como submissas, mas cúmplices."

 

Lygia emociona

 

Foi uma tarde de histórias nostálgicas e emocionantes, regadas a um bom vinho do Porto. Durante o processo de ensaio, as atrizes e a diretora Yara de Novaes reuniram-se com a escritora Lygia Fagundes Telles, em seu apartamento. Além de dar apoio ao projeto, ela contou como foi o processo de escrita de As Meninas.

 

"Acho que um dos momentos mais emocionantes foi quando Lygia lembrou do panfleto que recebeu e que detalhava a violência física sofrida por um preso político", conta Tuna Dwek, emocionada por lembrar momentos pessoais em que também foi presa, nos últimos anos do regime militar. A escritora transcreveu os detalhes da tortura para o livro e, por isso, temeu quando a obra foi enviada para o departamento de censura, processo obrigatório na época. O suspense, porém, durou pouco: cansado do que considerou um texto aborrecido, o censor liberou a obra sem nem ter chegado à sua metade. "Naquela noite, Paulo Emílio e eu comemoramos com um bom vinho", conta Lygia.

 

A escritora fez questão de conversar sobre cada personagem com o elenco, revelando lembranças e impressões. "Sua fala sobre as personagens é mais íntima do que a de uma mãe falando da cria", relembra Luciana Brites. "Ela falou sobre a noite em que terminou de escrever o romance. Que chorava por ter de se despedir das meninas e contou que Ana, em uma miragem ali, acordada naquela noite, voltou, sentou no seu colo e perguntou: ‘Por que você me deixou morrer? Eu ainda tinha tanto a fazer.’ Foi bonito demais ouvir isso."

 

Serviço. As Meninas. 80 min. 14 anos. Teatro Eva Herz. Livraria Cultura (166 lug.). Avenida Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, 3170-4059. Sáb., 21 h; dom., 18 h. Até 13/12

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